A célula secreta: como um núcleo da Polícia Federal se alistou para o golpe

A célula secreta: como um núcleo da Polícia Federal se alistou para o golpe
Publicado: 16 de maio, 2025
Na antevéspera da posse de Luiz Inácio Lula da Silva, em dezembro de 2022, um grupo de policiais federais trocava mensagens em aplicativos criptografados. Entre emojis de bandeiras e frases cifradas como “QAP” — jargão da segurança que indica prontidão —, eles discutiam a possibilidade de ocupar o Palácio do Planalto para proteger o então presidente Jair Bolsonaro. A ordem não veio. Mas os planos estavam prontos.
 
As informações fazem parte dos documentos anexados à Petição 13236, analisados pela Polícia Federal e enviados ao STF. No centro da trama está Wladimir Matos Soares, agente da PF que confessou ter integrado uma “equipe de operações especiais” formada para atuar armada contra a posse do presidente eleito. “Estávamos prontos para empurrar meio mundo de gente. Matar meio mundo de gente. Só esperávamos a canetada do presidente”, disse Wladimir em áudio captado no inquérito.
 
Em 29 de dezembro de 2022, mensagens enviadas por Wladimir a diversos contatos traziam uma frase repetida: “Não vai ter jogo”. A expressão, segundo a Polícia Federal, era um código sobre a iminência de uma ação para impedir a posse de Lula. O envio das mensagens ocorreu entre 13h48 e 14h09 daquele dia, e foi sucedido, horas depois, por novos diálogos que demonstravam frustração com o recuo das lideranças militares.
 
O grupo não agia sozinho. Segundo o relatório da PF, Wladimir recebeu convites de outros dois policiais: os agentes Ramalho e Marcelo, também da ativa, para integrar uma equipe de contenção. Essa força deveria atuar no Palácio do Planalto se Bolsonaro recusasse passar a faixa. Em seu depoimento, Wladimir narra ter surpreendido os dois conversando sobre o plano, que cessaram a conversa quando ele entrou na sala. “Wladimir é de confiança”, disse Ramalho antes de integrá-lo ao grupo.
 
Polícia,
 
Conexões com a Abin
As conexões se estendem à Abin. Ramalho e outro agente, Felipe Arlotta Freitas, haviam sido cedidos à agência sob a direção de Alexandre Ramagem. Em conversas de WhatsApp, Arlotta compartilha uma postagem de Ramagem e ouve de Wladimir: “Precisamos agir”. Em outra ocasião, segundo Wladimir, Ramalho comentou que “a cúpula estava reunida decidindo o que fazer”.
 
O material revela uma articulação verticalizada, que vai de agentes da base a figuras da cúpla da segurança pública. A organização não se limitava a discursos: havia planos operacionais e distribuição de funções. Havia também intenção de prender Alexandre de Moraes e de substituir o comando da PF.
 
A existência desse núcleo golpista dentro da Polícia Federal expõe os riscos que a democracia brasileira correu. Revela também que a tentativa de golpe não se limitou aos acampamentos em frente aos quartéis ou aos vídeos nas redes sociais: ela se infiltrou no coração do Estado.
 
“Faltou pulso do presidente”, disse Wladimir em outro trecho. “A tropa toda queria. Só os generais não deixaram.”
 
O golpe não aconteceu. Mas os seus soldados estavam prontos.
 
Fonte: ICL Noticias