Abril Indígena 2024 celebra saberes ancestrais

Abril Indígena 2024 celebra saberes ancestrais
Publicado: 22 de abril, 2024

Diversidade de cores, sons, histórias, culturas e conhecimentos. Assim é a programação do Abril Indígena 2024, em sua primeira edição, organizada na Unicamp e que segue até dia 30 de abril. A iniciativa, que remete ao Dia dos Povos Indígenas, 19 de abril, celebra a abertura da Universidade a um número crescente de estudantes indígenas e de outros povos, valorizando e reconhecendo os saberes provenientes de práticas culturais de diferentes etnias, incluindo africanas e afrodiaspóricas e outras.

 
“O evento está bem festivo neste ano, com a inauguração de dois espaços, e conta também com rodas de conversa, oficina, palestra, exposição e outras ações em Campinas e Limeira”, informou Alik Wunder, vice-presidente da Comissão Assessora para a Inclusão Acadêmica e Participação dos Povos Indígenas (Caiapi), vinculada à Diretoria Executiva de Direitos Humanos (DEDH) da Unicamp.
 
De acordo com Wunder, o Abril Indígena 2024 também dá visibilidade ao Vestibular Indígena da Unicamp, realizado desde 2018, com o primeiro ingresso de alunos em 2019. Atualmente, a Universidade conta com mais de 400 estudantes indígenas, de mais de 50 povos diferentes, distribuídos por todos os cursos. “Percebemos que, na região Sudeste, há um distanciamento muito grande da história indígena do nosso país e da questão indígena contemporânea. Temos pessoas cada vez mais sensibilizadas, conscientes de que precisamos de muito esforço institucional para realizar uma inclusão. Já caminhamos bastante. Daqui a uns anos teremos muitos doutores, mestres e professores indígenas fazendo essa transformação na Unicamp.
 
Esse é também o propósito da Casa dos Saberes Ancestrais, localizada ao lado do Espaço Cultural Casa do Lago, e do Jardim dos Saberes Ancestrais, uma área montada em frente à Faculdade de Educação (FE), espaços inaugurados na sexta-feira, dia 12. Os espaços constituem pontos de referência para o encontro multiétnico da comunidade da Unicamp, enriquecendo o aprendizado universitário por meio de tradições orais e sensoriais.
 
“A arquitetura da sala de aula é hierárquica e já diz quem sabe e quem não sabe. Nesses espaços, temos uma outra forma de organização – em roda, em que já está dito que cada um tem sua importância. Trata-se de locais de experimentar outras linguagens e modos de expressão. Na Faculdade de Educação, temos o Jardim dos Saberes como uma sala de aula a céu aberto, utilizada por professores, e também um espaço de descanso, de encontros informais”, completou Wunder.

Saberes Ancestrais
 
Embaixo da sombra das árvores, o Jardim dos Saberes Ancestrais convida os visitantes a sentarem e admirarem pedaços de troncos que dão forma circular ao espaço. Eles receberam pinturas que remetem à história dos diversos povos integrantes hoje da comunidade da Universidade. Nesse espaço, no dia 12, reuniram-se autoridades, professores e estudantes para dar início à inauguração dos dois ambientes. Dali todos partiram em uma caminhada até a Casa dos Saberes Ancestrais para o encerramento da cerimônia.
 
Nalbert Barreto, originário de São Gabriel da Cachoeira (Amazonas), iniciou sua trajetória acadêmica na Unicamp após aprovação no Vestibular Indígena em 2022 e atualmente cursa licenciatura em História. Ele foi um dos alunos convidados a participar da pintura dos troncos que compõem o jardim. “Muita gente só vê a questão estética. Para nós, os grafismos são nossa simbologia de vida, são nossas histórias. São histórias vivas, e fincar isso no solo da Unicamp é muito significativo”, disse. Barreto colaborou com a pintura do Umbigo do Mundo, que representa a origem dos povos Baré e Baniwa. Em outro tronco, do povo Tukano, por exemplo, estão pintadas as escamas da Cobra Canoa, que carregou os indígenas por diversas partes do Brasil até os afluentes do Rio Amazonas. O Jardim do Saberes Ancestrais reúne narrativas de povos diversos, como Dessana, Iorubá, Bwa, Nasa, Aymara, Ainu (Japão), ciganos e muitos outros.
 
Ervas do Mato
 
Barreto acredita que eventos como o Abril Indígena 2024 propagam a cultura indígena para além de apenas um espetáculo, propagam-na como forma de conhecimento e campo de estudo, a exemplo da Oficina de Ervas do Mato, ministrada pela mestra Japira Pataxó, no dia 11 de abril. “A maioria das pessoas aqui nunca teve contato com essa cultura. Isso quebra vários tabus de que o indígena é um sujeito do passado que não existe mais. Isso faz com que as pessoas voltem os olhos para o Brasil da região Norte e para a cultura linda da América do Sul, para uma ciência indígena para além da ciência ocidental tradicional.”
 
Na oficina, cravo-da-índia, guiné e preto-velho – plantas que muitos desconhecem – misturam-se para criar um banho contra mau-olhado. A preparação é compartilhada pelos presentes, que também aprendem com o conhecimento ancestral repassado pela mestra Japira Pataxó, pajé da aldeia Novos Guerreiros (Bahia). Um aprendizado herdado de seus antepassados, responsáveis pela cura das pessoas. “A gente sai da nossa aldeia, que é muito distante, e traz o conhecimento da floresta, da nossa terra mãe”, relatou.
 
Graziele de Lapedra é estudante de Fonoaudiologia e participou da oficina. Até então, apesar de ter um colega de curso indígena, ela não tinha tido contato com essa cultura. “Nunca tinha pensado que teria acesso a esse tipo de conhecimento aqui no campus. Os indígenas têm muito conhecimento sobre a natureza. Estou adorando descobrir isso tudo e quero conhecer mais.”
 
Fonte: Jornal da Unicamp