Os efeitos da pandemia de COVID-19 sobre a saúde mental da população mundial foram devastadores. A prevalência de ansiedade e depressão aumentou de forma drástica, os serviços de saúde mental sofreram importantes desfalques e os cuidados se concentraram sobre o tratamento, especialmente por meio da telemedicina. Como sempre, os segmentos ditos mais vulneráveis – como moradores das periferias urbanas, mulheres negras e trabalhadores informais – foram os mais afetados, mas o desastre foi extensivo a outros segmentos considerados mais estáveis – como homens brancos, pessoas com ensino superior e em empregos com carteira assinada. Cerca de 1,2 milhão de postos formais de trabalho foram perdidos só no primeiro semestre de 2020 e estimativas apontam que o desemprego atinge cerca de um quarto da população economicamente ativa. Essa situação catastrófica evidenciou ainda mais a importância da pauta da saúde mental no trabalho, cuja discussão e as formas de encaminhamento vêm sendo feitas, ao que tudo indica, de maneira cosmética. Ao invés da discussão sobre o sofrimento, a discussão sobre a felicidade; ao invés de medidas coletivas e institucionalizadas, soluções individualizantes e espontaneístas. O objetivo desta live é discutir essa maneira de tratar o grave problema das doenças mentais e agravos relacionados ao trabalho em ascensão no mundo contemporâneo do trabalho e inquirir: o que seria preciso pôr em pauta para que eles possam ser encaminhados de fato?
Mente em Foco: trabalho e saúde mental
Com curadoria do psicanalista Pedro Ambra, em parceria com o Pacto Global, da ONU, dentro do projeto #MenteEmFoco
Entre escolas a empresas, passando pelo mundo dos esportes e das redes sociais, um novo mantra parece se anunciar “precisamos falar sobre saúde mental”. Se até as últimas décadas do século XX o sofrimento psíquico estava ainda envolvo em estigmas e tabus, o foco na importância do bem-estar intensificou-se nos últimos anos tanto na opinião pública quanto nas instituições, criando uma espécie de paradoxo: nunca se cuidou tanto da saúde mental e nunca sofremos tanto. Mas de que cuidado e de que sofrimento estamos falando exatamente?
Sociedades tradicionais e povos nativos se preocupavam, ao seu modo, com o que hoje chamamos de saúde mental: por entenderem o sofrimento como um déficit na coesão da comunidade, xamãs, padres, curandeiras e oráculos buscavam religar o sujeito a um determinado lugar na estrutura social. A partir da modernidade, contudo, o indivíduo passa a ser tanto a medida de todas as coisas quanto um ente racional, livre e responsável – inclusive por seus próprios conflitos. A febre dos best-sellers de auto-ajuda ilustra essa ilusão de que cada um de nós é causa de seus problemas e, portanto, vive as consequências de escolhas ruins que podem ser revertidas individualmente. Sair da zona de conforto, pensar positivo e, acima de tudo, empreender. A febre dos coachs ilustra que este discurso de receitas simples (gritos de guerra, técnicas de meditação rápida, efeitos positivos do “bom stress” e ideia de que ricos são ricos porque acordam cedo, entre outros) funda uma obscura fronteira entre bem-estar psíquico e sucesso financeiro no trabalho. Seria este discurso a cura ou a própria causa da explosão de casos de burnout, especialmente na pandemia?
Olhar para si mesmo e não para a estrutura que organiza o mundo, a sociedade e o trabalho é a ideologia que permeia grandes setores sociais no Brasil e no mundo. Contudo, o sofrimento na contemporaneidade escancara o outro lado desta moeda: a hiperexploração, pauperização e dissolução das garantias básicas de direitos do trabalhador — que se vê, por exemplo, sem férias, sindicados, CLT ou possibilidade de greves — conduz a uma espécie de epidemia de burnouts. A pandemia e o confinamento explicitam no quotidiano tal problemática ao colidirem a esfera do trabalho remunerado e com a do trabalho doméstico de reprodução da vida. Verificamos mais ainda a disparidade entre os gêneros na medida em que são as mulheres, em sua esmagadora maioria, as responsáveis pela gestão doméstica concreta e aquela da chamada carga mental. São elas as que mais sofreram emocionalmente durante a pandemia, para além do brutal aumento dos casos de violência física e psicológica. Se é verdade que, para o discurso dominante, há apenas indivíduos e famílias, como explicar o fato de que sofremos por conta de mudanças sociais?
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