Com capacidade de atendimento esgotada pela pandemia da Covid-19, Santa Casa de Misericórdia de Presidente Prudente chega ao 'colapso total'
A Santa Casa de Misericórdia de Presidente Prudente (SP) está com sua capacidade de leitos para o atendimento de pacientes com Covid-19 exaurida e chegou ao "colapso total", segundo um comunicado oficial divulgado pelo provedor do hospital, Itamar Alves de Oliveira.
De acordo com o documento, datado da última quinta-feira (25), a Santa Casa possui atualmente 66 leitos para atendimento de Covid-19. São 45 leitos clínicos e 21 de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), números que, segundo o hospital, “estão sendo extrapolados diariamente”.
A Santa Casa salienta que a quantidade de leitos não está sendo suficiente para atender todos os pacientes que procuram o hospital.
“Há um mês a Santa Casa está com seus leitos 100% ocupados para atendimento [de] Covid”, pontua Oliveira.
“Além do mais, no dia 24 de março de 2021 a Santa Casa chegou ao colapso total, pois não havia mais ‘pontos de oxigênios’ disponíveis no Hospital, muito menos ventiladores mecânicos, inclusive foi necessário utilizar os ventiladores de transportes para atender os pacientes no pronto-socorro”, detalha o provedor.
Ainda na última quarta-feira (24), havia 13 pacientes no pronto-socorro aguardando leitos de UTI. O hospital totalizou 34 pacientes graves de UTI, sendo que 33 estavam em ventilação mecânica, todos casos de Covid-19.
“Inclusive a Vigilância Sanitária municipal realizou uma inspeção no hospital na data do dia 24 de março de 2021 para verificar o atendimento hospitalar em tempo de pandemia, momento em que verificou a situação de que a Santa Casa estava com sua capacidade extrapolada”, relata Oliveira.
“Além da ocupação máxima, existe o grande risco dos desabastecimentos dos medicamentos utilizados para sedação e devido a isso não será realizada qualquer cirurgia eletiva”, alerta o provedor.
No comunicado oficial, Oliveira informa que a Santa Casa não tem sequer um leito de UTI ou clínico disponível na ala de Covid-19 para atendimento da população. Também relata que as salas de emergências e de medicações estão lotadas, “não tendo mais sequer local disponível para que o paciente possa esperar um leito observando as medidas mínimas de segurança”.
No documento, que, segundo o hospital, foi encaminhado para órgãos de saúde, como o Departamento Regional de Saúde (DRS), da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, e ainda ao Ministério Público, o provedor enfatiza que “a Santa Casa envidou todos os seus esforços no intuito de melhor atender a população e garantir total segurança a seus pacientes e funcionários”.
Segundo ele, a Santa Casa é, desde o início da pandemia, “o hospital que mais atendeu pacientes com Covid e que menos perdeu vidas nos atendimentos prestados”.
O provedor ainda argumenta que “a Santa Casa presta serviços hospitalares de qualidade para toda a população da região de Presidente Prudente, inclusive no âmbito do Sistema Único de Saúde [SUS], sendo referência regional em modelo de saúde”.
Governos municipal, estadual e federal
O G1 solicitou neste sábado (27) posicionamentos oficiais da Prefeitura de Presidente Prudente, da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo e do Ministério da Saúde sobre o comunicado divulgado pela Santa Casa.
As respostas seguem abaixo:
Município
A Prefeitura informou ao G1 que não vai se pronunciar a respeito do assunto.
Estado
A Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo alegou, em nota ao G1, que “a rede de saúde está impactada com o aumento de casos e internações em diversos pontos do Brasil”.
No Estado, a taxa de ocupação dos leitos de UTI para Covid-19 chegou a 92,4% e, na região de Presidente Prudente, é de 96,2%, segundo a pasta.
De acordo com a nota enviada ao G1, o governo paulista, para fazer frente a este cenário, prorrogou a fase emergencial do Plano São Paulo até o dia 11 de abril, com restrições mais rígidas de circulação visando a evitar o aumento de casos, internações e mortes.
“Além disso, está trabalhando junto aos municípios para ampliação de leitos de enfermaria e UTI no SUS. É fundamental que a população respeite a fase emergencial do Plano São Paulo, use máscaras, respeite o distanciamento social e fique em casa”, salientou.
Na região de Presidente Prudente, estão em andamento, conforme a secretaria estadual, as medidas para adaptação do Ambulatório Médico de Especialidades (AME) de Dracena (SP), com previsão de 10 leitos de UTI e dois de enfermaria.
Ainda no início de março, a Secretaria da Saúde do Estado implantou 10 novos leitos de UTI para Covid-19 e 10 de enfermaria no Hospital Regional (HR), em Presidente Prudente. Hoje a unidade conta com o total de 40 leitos de UTI e 55 de enfermaria exclusivos para atendimento ao novo coronavírus.
A secretaria também pontuou ao G1 que mantém diálogo com representantes de empresas fornecedoras de gases medicinais para garantir a perenidade do fornecimento de oxigênio nos hospitais da rede hospitalar estadual que atendem a casos graves e gravíssimos de Covid-19.
Na última segunda-feira (22), o governo de São Paulo anunciou medidas de mobilização com a iniciativa privada para produção e distribuição de oxigênio.
Sobre os medicamentos, a Secretaria da Saúde do Estado alegou que vem cobrando o governo federal por medidas “expressas e urgentes” para abastecer a rede pública de saúde com remédios utilizados em intubação.
“A finalidade é garantir disponibilidade para atender os casos graves de Covid-19, especialmente devido ao crescimento do número de internações. É necessária uma centralização e uma política nacional para que os pacientes continuem sendo assistidos adequadamente”, prosseguiu.
A pasta frisou que tem cobrado recorrentemente providências por parte do Ministério da Saúde, por meio de ofícios e reuniões com representantes federais, a exemplo da realizada em 19 de março com participação da Saúde estadual.
“Apesar disso, o governo federal fez somente uma liberação de neurobloqueadores em quantidade suficiente para apenas dez dias de consumo”, salientou.
“É fundamental que os gestores dos demais serviços de saúde que compõem as redes pública e privada de saúde mantenham o monitoramento da sua demanda, utilizem racionalmente estes produtos e otimizem medidas para garantir assistência a quem precisa”, concluiu a secretaria ao G1.
União
Também em nota ao G1 neste sábado (27), o Ministério da Saúde informou que, desde o início da pandemia, presta apoio irrestrito aos estados, municípios e Distrito Federal para reforçar a assistência hospitalar da rede pública de saúde na abertura de leitos de UTI adultos e pediátricos exclusivos para o tratamento de pacientes com Covid-19.
Somente neste ano, a autorização de custeio pela pasta permitiu a abertura de 12.265 leitos de UTI em todo o país – um investimento de mais de R$ 580 milhões.
Além disso, o ministério ressaltou que as unidade federadas têm autonomia para a abertura de novos leitos.
“O pedido de autorização para o custeio dos leitos de UTI Covid-19 é feito pelas secretarias estaduais e municipais de saúde, que garantem a estrutura necessária para o funcionamento dessas unidades. Entre os aspectos observados nas solicitações de autorização estão a curva epidemiológica do coronavírus na região, a estrutura para manutenção e funcionamento da unidade intensiva e corpo clínico para atuação em UTI”, explicou.
O órgão do governo federal ainda esclareceu que a regulação de lista de espera de leitos para pacientes com Covid-19 é atribuição dos estados.
Além disso, com o objetivo de equalizar a situação de medicamentos para intubação orotraqueal em decorrência da pandemia por Covid-19 no Brasil, o secretário de Atenção Especializada à Saúde do Ministério da Saúde, Luiz Otávio Franco Duarte, esteve em São Paulo (SP) nesta sexta-feira (26) fechando acordos para envio de mais sedativos.
No início da noite, Franco Duarte se reuniu com representantes da empresa MSD, que se comprometeu a enviar mais 545 mil ampolas.
Ao longo do dia, em outra reunião, ficou acordado com a empresa Achè 129 mil unidades de medicamentos para intubação.
“A iniciativa respeita as realidades do parque industrial de cada fabricante, contratos prévios e a necessidade do cidadão brasileiro”, prosseguiu o ministério.
“O saldo de um dia de negociações chega a 674 mil unidades de sedativos, reforçando o compromisso do governo federal em apoiar de forma irrestrita e integral estados e municípios e, principalmente, salvar o maior número de vidas possível. Os medicamentos da MSD começarão a ter entrega imediata e acontecerão até o dia 1º de abril. Todos os acordos firmados até agora contemplam hospitais públicos e privados nas regiões de maior criticidade”, detalhou ao G1.
Na noite de quinta-feira (25), outra indústria, a União Química, começou o envio dos medicamentos para intubação acordados com o Ministério da Saúde em comitiva técnica realizada, também em São Paulo, nos dias 22 e 23 de março.
O primeiro lote, com 165 mil de sedativos, de um total de 1,4 milhão de unidades, chegou no depósito de Guarulhos (SP).
“Assim que todas as entregas desses acordos com as indústrias chegarem aos estados, caberá aos gestores locais organizarem e distribuírem os medicamentos aos municípios e estabelecimentos de saúde, conforme demandas e realidades”, acrescentou.
“O Ministério da Saúde também firmou acordo com outras duas indústrias, a Cristália, que firmou acordo de 1,2 milhão de unidades de medicamentos para intubação, e com a Eurofarma, que acordou o envio de 212 mil unidades dos sedativos. No total, a missão desta semana já garantiu mais de 2 milhões de unidades de medicamentos que integram o chamado kit intubação para os pacientes graves da Covid-19”, concluiu o Ministério da Saúde ao G1.
Fonte: G1