Conselho Popular do BRICS defende taxação dos super-ricos e desdolarização
A adoção de alternativas que diminuam a dependência do dólar e a taxação dos super ricos, pauta que movimenta o debate na política nacional, estão entre as sugestões encaminhadas pelo Conselho Popular do BRICS aos chefes de Estado que se reúnem na Cúpula de Líderes do grupo a partir deste domingo (6) no Rio de Janeiro.
Criado em 2024, ainda sob a presidência da Rússia, o Conselho Popular se reuniu pela primeira vez entre sexta-feira (4) e sábado (5), no Rio, e produziu uma série de recomendações. Esse conselho é formado por lideranças de movimentos sociais dos 11 países membros do BRICS.
Para Judite Santos, uma das representantes do Brasil no conselho, a participação dos movimentos sociais é fundamental em meio ao contexto de crise da ordem global.
“A saída para a crise tem que ser dialogada e construída também com a participação popular, porque não adianta as negociações considerarem apenas a saída pelo viés do capital sem considerar o território, as vidas das pessoas. As pessoas são imersas em meio desse conflito, principalmente”, afirmou a conselheira em entrevista ao ICL Notícias. “[O Conselho] é também um espaço de denúncia da ingerência imperialista sobre os demais países do mundo”, disse ainda.
A socióloga Ana Priscila Alves, militante da Marcha Mundial de Mulheres e integrante da coordenação continental do ALBA Movimentos, destaca o BRICS como “principal articulação do mundo que tem esse foco no Sul Global” em um momento que os Estados Unidos, sob a presidência de Donald Trump, impulsiona conflitos para tentar manter sua hegemonia.
“Uma alternativa desde o Sul é fundamental não só para o mundo, mas até mesmo para [dentro dos] nossos países, para que a gente consiga construir processos de soberania que não dependam apenas dos Estados Unidos, de transações e instituições que, em geral, tem gerado endividamento e subordinação. [O BRICS] é uma tentativa de construir soberania a partir das nossas próprias realidades, mesmo que não seja um bloco homogêneo”, afirmou Alves, que fez parte do GT de Finanças do Conselho.
“As instituições multilaterais tem cada vez dado menos conta de resolver os grandes problemas que a gente tem no mundo, como guerras, genocídio, e o endividamento e o empobrecimento dos nossos países, dos nossos povos. Em geral, a articulação entre os países se dá muito a partir de uma balança comercial, mas pra gente [do Conselho Popular do BRICS] é fundamental a garantia de crescimento econômico Os movimentos sociais estão aqui pra apresentar que o nosso projeto de crescimento e desenvolvimento é onde a vida vale mais do que o lucro”, completou.
Nesse sentido, os movimentos sociais incluíram entre as recomendações a de “taxar indivíduos com alto patrimônio líquido”. Em 2024, durante a presidência brasileira do G20 foi aprovada uma proposta para estabelecer uma tributação sobre os super-ricos. Cálculos do Ministério da Fazenda estimam que uma taxação de 2% pode arrecadar até 250 bilhões de dólares por ano no mundo.
O conselho também fez recomendações relativas à ordem financeira global, indicando um caminho para o BRICS reduzir a dependência do dólar, a chamada desdolarização. Os movimentos recomendaram “expandir o uso das moedas nacionais do BRICS no comércio entre os membros, fortalecendo a soberania nacional e financeira e garantindo uma representação mais equilibrada das economias do bloco” e “estabelecer um sistema de pagamento dedicado aos BRICS, utilizando moedas nacionais para facilitar as transações e incentivar a sua adoção mais ampla”.
“Reconhecendo os desequilíbrios estruturais do Sistema Monetário e Financeiro Internacional e os impactos desproporcionais sobre os países em desenvolvimento, destacamos a importância de promover alternativas à dominância das moedas hegemônicas”, aponta o documento.
Durante sessão do Novo Banco do Desenvolvimento (NDB), a presidenta da instituição, Dilma Rousseff, negou que o banco esteja caminhando rumo à desdolarização e disse que nenhum país hoje quer assumir o lugar dos Estados Unidos e do dólar por causa das consequências para a própria economia.
Plebiscito popular
A taxação dos super-ricos faz parte do conjunto de demandas do Plebiscito Popular mobilizado pela Frente Brasil Popular e a Frente Povo Sem Medo. Uma urna de votação chegou a ser colocada durante o conselho para que lideranças presentes pudessem participar.
O ministro Márcio Macêdo, que participou da cerimônia de abertura do conselho, destacou a importância de “a sociedade de forma organizada fazer um plebiscito para ouvir o conjunto da sociedade brasileira com temas tão importantes”.
“É inaceitável que menos de 1% da população queria impor as suas vontades, os seus privilégios, ao restante da população. Nós estamos falando dos 50 bilionários que não querem pagar o imposto devidamente. Nós queremos que eles paguem igual o que nós pagamos. Não está se falando em aumentar impostos com a população. Está se falando em justiça tributária. Queremos justiça tributária”, disse Macêdo.
A deputada estadual Marina do MST (PT-RJ), que também esteve na mesa de abertura, destacou que o Brasil vive um “momento crucial”
“Esse é o momento de taxar os super-ricos, tirar das grandes fortunas para combater a desigualdade social, para a gente realmente trabalhar por uma sociedade mais justa e mais igualitária no nosso país. Quero aqui convidar todo mundo para votar no plebiscito popular pela taxação dos Super-Ricos e contra a escala 6×1 no Brasil”, disse a deputada ao ICL Notícias.
Fonte: ICL Notícias
Regulação de IA, repúdio a sanções e reforma de Bretton Woods: leia íntegra da declaração de líderes do Brics

Os chefes de Estado dos países do Brics divulgaram neste domingo (6), no Rio de Janeiro (RJ), a declaração política final da 17ª Cúpula do bloco. Com 57 pontos, o documento reforça o compromisso com o multilateralismo, propõe reformas estruturais em organismos internacionais e denuncia práticas que aprofundam desigualdades globais, como as sanções unilaterais e a concentração de poder no sistema financeiro global.
As lideranças do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul foram unânimes ao defender maior representação dos países em desenvolvimento nos processos decisórios da governança global. Entre os destaques da declaração estão a defesa da causa palestina, o avanço na construção de um sistema financeiro alternativo ao Swift e o lançamento de uma iniciativa própria para a regulação internacional da inteligência artificial.
Reforma da governança global
O documento dedica parte expressiva à crítica da atual arquitetura institucional da Organização das Nações Unidas (ONU). Os países do Brics reafirmam o apoio a uma reforma ampla do sistema das Nações Unidas, incluindo o Conselho de Segurança, com o objetivo de torná-lo mais democrático, representativo e eficaz. A declaração também condena o monopólio de cargos de alto escalão por países do Norte Global e reivindica maior presença de representantes da África, América Latina e Caribe na estrutura da ONU.
Bretton Woods sob crítica
Outro eixo prioritário do texto é a reforma das instituições de Bretton Woods: o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. Os países do Brics defendem a redistribuição das cotas de poder no FMI, com maior peso para economias emergentes, e criticam a lentidão nas reformas prometidas. Também é reivindicado o aumento da representatividade dos países em desenvolvimento nas decisões do Banco Mundial.
Novo Banco de Desenvolvimento
No campo financeiro, a declaração reafirma o papel do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) como agente estratégico de fomento no Sul Global. O grupo manifesta apoio à presidência de Dilma Rousseff à frente da instituição e à ampliação do número de membros. Entre as propostas em destaque estão o financiamento em moeda local e a criação de uma Garantia Multilateral para estimular investimentos em infraestrutura e reduzir riscos de crédito.
Sistema financeiro alternativo
A cúpula também avançou no plano de construção de um sistema de pagamentos transfronteiriços próprio. A Iniciativa de Pagamentos Transfronteiriços do Brics foi formalmente endossada pelos líderes, que saudaram o relatório técnico elaborado para garantir maior interoperabilidade entre os sistemas nacionais. A proposta representa um passo concreto no projeto de desdolarização das transações comerciais e busca proteger os países do bloco contra sanções e bloqueios impostos por plataformas dominadas por Estados Unidos e Europa.
Inteligência artificial e soberania digital
Os países lançaram ainda a Declaração sobre a Governança Global da Inteligência Artificial, com foco em desenvolvimento responsável, soberania tecnológica e combate à fragmentação da internet. O texto defende a centralidade da ONU na mediação das discussões sobre o uso de tecnologias emergentes e propõe regras globais para garantir acesso equitativo e segurança no uso das TICs, incluindo medidas de cibersegurança e economia de dados.
Defesa da Palestina
No campo geopolítico, os líderes condenaram os ataques israelenses em Gaza e pediram um cessar-fogo imediato, incondicional e permanente. A declaração exige a retirada das forças de ocupação israelenses da Faixa de Gaza e reafirma o apoio à criação de um Estado palestino soberano, com Jerusalém Oriental como capital. Também são denunciadas as violações do direito humanitário e o uso da fome como método de guerra.
Contra sanções unilaterais
Os países do Brics voltaram a criticar a imposição de medidas coercitivas unilaterais, como sanções econômicas, sem aprovação do Conselho de Segurança da ONU. O documento aponta que essas ações violam o direito internacional e têm impactos negativos diretos sobre os direitos humanos e o desenvolvimento de países do Sul Global. Os membros do bloco também se comprometeram a não aplicar esse tipo de sanção entre si.
Agricultura e combate à fome
No campo do desenvolvimento, a declaração apoia a criação de uma Bolsa de Grãos do Brics como forma de enfrentar a insegurança alimentar. Há também compromissos com a restauração de terras degradadas, incentivo à agricultura familiar e promoção de sistemas alimentares sustentáveis. O bloco reconhece o papel estratégico da soberania alimentar na superação da fome.
Cooperação em saúde
Os países do Brics também propuseram medidas para fortalecer a governança global em saúde, com apoio à Organização Mundial da Saúde (OMS) e à implementação do Acordo sobre Pandemias. A declaração reafirma o compromisso com o acesso equitativo a vacinas e medicamentos e propõe a criação de uma parceria voltada para a eliminação de doenças socialmente determinadas.
Paz e segurança internacionais
A defesa da solução pacífica de conflitos e do multilateralismo como princípio da política externa foi reafirmada pelos países do bloco. A declaração expressa preocupação com os conflitos em curso em regiões como Sudão, Síria, Ucrânia e Irã, e condena ações militares que violem o direito internacional. Também foi manifestado apoio à agenda Mulheres, Paz e Segurança, com ênfase na participação feminina nos processos de mediação e reconstrução.
Fonte: Brasil de Fato