Coronavírus: Conselho de Saúde de Campinas registra 330 afastamentos de profissionais de saúde em 3 meses e denuncia falta de transparência
O Conselho Municipal de Saúde de Campinas (SP) divulgou nesta quarta-feira (17) que 330 profissionais de saúde de diversas áreas foram afastados nos últimos três meses na rede pública por terem apresentado sintomas do novo coronavírus. O balanço, no entanto, aponta subnotificação do número de ocorrências nas unidades, uma vez que não traz a realidade na Rede Mário Gatti.
Os que integram o estudo são funcionários dos centros de saúde, centros de referência, centros de atenção psicossocial (CAPs) e policlínicas, todos gerenciados pela Secretaria Municipal de Saúde. Os trabalhadores forneceram os casos ao Conselho entre os dias 13 de março e 16 de junho.
Presidente do conselho, Nayara Lúcia Soares de Oliveira afirmou ao G1 que há falta de transparência por parte da prefeitura em obter dados que mostrem a realidade dos médicos, enfermeiros, técnicos e outros cargos infectados pela Covid-19.
"Ele não alcança, por exemplo, todos os serviços da Rede Mário Gatti, está tudo de fora. Nós não conseguimos obter essas informações dos trabalhadores da Rede Mário Gatti.[...] Nós estamos desde o início da pandemia tentando obter esses dados oficiais, mas a Secretaria não nos fornece e nem publica isso no hotsite."
"Essa é uma questão de falta de transparência muito grave, e explicita também a falta de priorização do monitoramento público em relação à saúde dos trabalhadores", completa a presidente do Conselho.
A Rede Mário Gatti é responsável pela gestão dos hospitais Mário Gatti e Ouro Verde , além de quatro Unidades de Pronto-Atendimento (UPA) - São José, Anchieta, Carlos Lourenço e Campo Grande -, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e o Hospital de Campanha.
No último fim de semana foi registrado o óbito de um profissional de saúde do Ouro Verde. Ele morava em Indaiatuba (SP). Também não resistiu à Covid-19 o médico José Archimedes Meloni, de 65 anos, que atuava como clínico geral da UPA do Campo Grande.
Segundo a presidente do Conselho, os dados se referem a pessoas que tiveram os sintomas e foram afastadas. A entidade informou que não conseguiu obter a informação de quantos profissionais foram testados, quantos confirmaram a infecção por Covid-19 e quantos morreram.
Situação por região
Na divisão por distritos de saúde, a região Sudoeste se destaca, com 95 afastamentos. Veja a situação de cada distrito abaixo:
Sudoeste - 95
Leste - 75
Norte - 63
Sul - 53
Noroeste - 44
Ranking de cargos e funções mais afetados
Agente comunitário de saúde: 59
Técnico de enfermagem: 56
Auxiliar de enfermagem: 46
Médico: 41
Enfermeiro: 35
Zelador: 25
Técnico de farmácia: 11
Psicólogo: 9
Administração: 7
Terapeuta ocupacional: 7
Auxiliar de consultório dentário: 6
Auxiliar administrativo: 4
Farmacêutico: 4
Monitor: 4
Recepcionista: 4
Vigilante: 3
Dentista: 2
Fonoaudiólogo: 2
Agente de apoio operacional: 1
Fisioterapeuta: 1
Nutricionista: 1
Redutor de Danos: 1
Técnico em higiene dental: 1
"A atividade de enfermagem é a que apresenta maior proporção de afastamentos (41,52%) seguidos por Agentes Comunitários (17,88%), Médicos (12,4%) e Zeladoria (8,48%). Essas 4 atividades são responsáveis por aproximadamente 80% de todos os afastamentos", diz o levantamento do Conselho.
Segundo o estudo, dos 4.016 profissionais da Secretaria de Saúde - com exceção dos que trabalham na Rede Mário Gatti - 8%, pelo menos, já necessitaram de afastamento. E chamou a atenção da entidade o número de sintomáticos entre atividades que não estão diretamente relacionadas ao combate da Covid.
"Os trabalhadores da farmácia, por exemplo, que reclamam das suas gestões que os consideram em atividades de menor risco, estão proporcionalmente entre os trabalhadores mais afetados. O mesmo acontece com os/as agentes comunitários de saúde", aponta o relatório.
O que diz a Prefeitura de Campinas?
Em transmissão ao vivo na tarde desta quarta-feira (17), o presidente da Rede Mário Gatti, Marcos Pimenta, afirmou que há, atualmente, 94 profissionais de saúde afastados nas unidades gerenciadas. Disse também que há "um grande número de profissionais que já voltaram à ativa", sem informar o total de afastamentos registrados desde o início da pandemia.
"O afastamento na Secretaria de Saúde é da ordem de 6,4%. Na Rede, 9%. A gente não afasta só porque tem Covid, se a pessoa tem contato com alguém ou se tem um quadro respiratório, afastamos preventivamente", completa o secretário de Saúde Carmino de Souza.
Em relação ao levantamento do Conselho, o prefeito Jonas Donizette não quis se posicionar.
Fonte: G1
Foto: EPTV