Da escola ao 1º emprego: como buscar um caminho profissional sem ter (ao menos ainda) um diploma universitário
Durante os programas, os jovens costumam passar por todos os setores do hotel. Áreas como a recepção (que exige o conhecimento do inglês) e os setores mais administrativos (onde a maioria dos funcionários possui nível superior), no entanto, não costumam abrigar os recém-formados no programa, ao menos não de primeira. Mas a história desses jovens é repleta de casos de superação.
Formada pela turma de 2011, Natalia Cordeiro não foi efetivada logo após o curso, mas entrou na equipe do hotel um pouco mais tarde como aprendiz - muitos dos 30 ex-alunos do Formare atualmente no Hyatt foram contratados primeiro como aprendizes e estagiários, o que mostra também o quanto a persistência e a força de vontade são cruciais nessa fase da carreira.
Depois de promovida a estagiária e com significativa melhora no inglês, ela partiu para Dubai, onde trabalhou em uma unidade local da rede.
De volta a São Paulo, foi contratada em abril deste ano como estagiária e, em julho, aos 22 anos, efetivada como assistente de recursos humanos.
QUANDO O CÉU É O LIMITE
Um dos casos mais impressionantes nesse sentido é o do mineiro Everton Alves, de 35 anos.
Ex-aluno da turma do Formare de 1999, ele trabalha hoje como diretor de operações e vendas da Sambatech, empresa especializada em armazenagem e distribuição de conteúdos digitais.
Auxiliar de pedreiro na adolescência, ele conseguiu o primeiro emprego cinco meses após se formar no projeto.
Trabalhando na indústria de autopeças, ele passou rapidamente do chão de fábrica para a área de qualidade graças ao estofo fornecido pelo Formare e também por causa do curso técnico que ele decidiu fazer assim que entrou no mercado.
"A minha família inteira, que é bastante humilde, sempre trabalhou na indústria. Nós viemos de Contagem, que é uma zona industrial. E ali, na Sambatech, uma start-up, eu tinha 27 anos e era o mais velho da sala", recorda.
Com a intenção de retribuir aquilo que recebeu, Everton atuou como educador voluntário do programa entre 2009 e 2012 nas disciplinas de informática e raciocínio lógico. Uma vez, há cinco anos, foi parado na rua por um ex-aluno que havia assistido a apenas uma aula sua, a última.
"Ele me disse que aquela aula mudou a sua vida. E isso, pra mim, foi inesquecível. Eu sei o que eles estão vivendo, parece meio intangível falar em ter sucesso na carreira. Mas quando alguém como eu fala com eles é como se houvesse um espelho", diz.
O apoio da família nos períodos mais difíceis é fundamental para o jovem que não possui um diploma mas deseja crescer na carreira.
"Durante o período que eu cursava o Formare, eu simplesmente não parava em casa. Era curso o dia todo e escola de noite. Muitos dos meus amigos naquela época passavam o dia à toa, no máximo tinham (cursado) o colégio. Mas a minha família sempre me incentivou muito. Fui o primeiro a cursar uma faculdade, e todos os meus irmãos, mais novos do que eu, acabaram por também fazer o mesmo mais tarde", conta.
A IMPORTÂNCIA DO PLANEJAMENTO E DAS ATIVIDADES SIMPLES
"É preciso sacrificar uma parte das horas de lazer para dar esse upgrade nas qualificações. Não existe outro jeito. Quando você estiver finalmente empregado e com um salário um pouquinho maior, por que não fazer uma faculdade? Depois de concluir a faculdade, por que não uma pós? Ou aprender inglês, que é um diferencial e algo mais barato do que uma faculdade ou pós-graduação?", exemplifica Fernando Mantovani, diretor-geral da consultoria Robert Half no Brasil.
Seja começando a carreira com a ajuda de programas sociais de capacitação, seja com o auxílio de programas governamentais ou privados de ajuda a jovens candidatos a emprego (veja uma lista deles ao final da reportagem), seja por conta própria, é importante também focar no planejamento.
Questionamentos como para onde se quer ir, quais os próximos passos e quais são os seus pontos fracos devem ser feitos constantemente.
Para Mantovani, é preciso também relativizar a importância do ensino superior no Brasil de hoje, dada a quantidade de cursos de péssima qualidade.
"Muitas vezes o profissional se frustra porque faz aquela faculdade com bastante esforço, mas não consegue o emprego que achou que ia conseguir. A falta de controle da qualidade do ensino cria uma indústria estelionatária, onde o aluno acha que aprende e a instituição lhe dá um pedaço de papel que custou algum dinheiro mas não vale grande coisa", opina.
Essa força de vontade na hora de aprimorar competências é fundamental e independe de grau de estudo ou condição social.
Para ele, vale muito mais a pena para o jovem que batalha pelo primeiro emprego investir em um bom curso técnico - ou mesmo cursar o ensino médio técnico - do que em um curso universitário de qualidade duvidosa.
E as empresas em geral e os recrutadores em particular também precisam mudar os seus parâmetros e avaliar essa questão de forma menos automática e mais cautelosa.
"É preciso ter muito cuidado com essa pressão pelo curso superior. Gestores podem acabar dando preferência a profissionais com um ensino superior ruim em detrimento de um profissional técnico bom", adverte.
Estudo recente do Sistema Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) apontou que o Brasil precisará qualificar 13 milhões de trabalhadores em ocupações industriais até 2020. Em países como Alemanha, Áustria, Suíça e Japão, mais da metade de todos os estudantes cursam alguma formação técnica junto com o ensino regular.
E mesmo no Brasil não é possível associar o nível técnico a salários necessariamente mais baixos.
Ainda segundo o Senai, um técnico em mineração recém-formado, por exemplo, tem hoje no país rendimentos iniciais de R$ 7 mil - salário de fazer inveja à maioria dos universitários em início de carreira.
Educação e qualificação profissional à parte, é importante lembrar que muitas vezes aquela ajuda providencial pode estar logo ao lado.
A relações-públicas Camilla Assreuy, por exemplo, ainda trabalhava no setor varejista de moda quando se deparou com uma profissional que havia perdido o seu emprego como estoquista em uma loja e precisava se recolocar.
"Ela não fazia a menor ideia de como ou por onde começar a procurar trabalho", recorda.
Com uma simples consulta a um aplicativo que integrava informações e serviços para os lojistas e funcionários do shopping em questão, e que a moça desconhecia, Camila encontrou não uma, mas dez vagas de estoquista para a profissional.
Ou seja: ninguém deve ter receio, vergonha ou preguiça de perguntar, pesquisar e pedir ajuda. E não só quando se trata do primeiro emprego.
PROGRAMAS DE QUALIFICAÇÃO GRATUITOS
Alguns também oferecem benefícios ou feiras de oportunidades
Instituto Formare (para jovens entre 16 e 18 anos)
http://www.formare.org.br/formare
Youth Career Iniciative (para jovens entre 18 e 24 anos)
http://www.youthcareerinitiative.org/country/brazil
Programa Jovem Protagonista (para jovens entre 16 e 29 anos)
http://jovemprotagonista.com/pt/home
Programas de emprego, estágio e/ou ligados à Lei da Aprendizagem:
Centro de Integração Empresa Escola
http://www.ciee.org.br/portal/index.asp
Programa Jovem Cidadão (para jovens entre 16 e 21 anos residentes na Grande São Paulo, em Campinas, Piracicaba, São José dos Campos e Santos)
http://www.emprego.sp.gov.br/emprego/jovem-cidadao
Programa Aprendiz Legal (para jovens entre 14 e 24 anos)
http://site.aprendizlegal.org.br
Programa Aprendiz Paulista (para jovens entre 14 e 24 anos residentes no estado)
https://www.empregasaopaulo.sp.gov.br/imoweb
Fonte:FOLHA
Foto: BBC Brasil