Debates na CPI da Pandemia ignoraram pesquisas científicas confiáveis, diz estudo

Debates na CPI da Pandemia ignoraram pesquisas científicas confiáveis, diz estudo
Publicado: 17 de março, 2023

 Um estudo que analisou todos os discursos dos senadores ao longo da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia, mostra que as falas dos parlamentares tiveram pouco embasamento técnico e científico, ou seja, não foram calcados em pesquisas confiáveis e reconhecidas pela ciência.

 
A pesquisa, divulgada nesta quinta-feira (16), foi conduzida pelo estúdio de inteligência de dados Lagom Data e apoiada pelo Instituto Serrapilheira.
 
“Praticamente só os estudos falhos foram debatidos, passando ao largo de quase toda a melhor produção científica sobre a Covid já feita no Brasil”, disse Marcelo Soares, diretor da Lagom Data e responsável pelo relatório.
 
De acordo com o levantamento, que levou em conta mais de 3,2 milhões de palavras das transcrições dos debates, tanto a oposição ao então governo de Jair Bolsonaro (PL), quanto os defensores do então chefe do Executivo, usaram poucas pesquisas confiáveis.
 
Segundo o estudo, por exemplo, das 110 “referências científicas” localizadas nas falas da CPI da Pandemia, o maior volume (42 ou 39,3%) veio do senador Luiz Carlos Heinze (PP-RS), ligado a Bolsonaro, que depois assumiu pegar tais informações de um grupo de WhatsApp.
 
O relatório cita um caso em que Heinze usou como embasamento uma imagem divulgada nas redes sociais de uma suposta pesquisadora por estudos sobre a cloroquina. A mulher, na verdade, era uma ex-atriz pornô.
 
“A principal estratégia de Heinze era metralhar as sessões com referências de difícil verificação. Em uma das falas, citou a pesquisa de ‘um moço, brasileiro’. Em outra fala, disse ter acesso a 284 pesquisas positivas sobre os efeitos da hidroxicloroquina e 137 sobre a ivermectina. Em outras sessões, Heinze perguntava aos convocados qual era o seu índice H – métrica utilizada para quantificar o impacto de cientistas a partir de seus artigos mais citados”, afirma o relatório.
 
A pesquisa ainda diz que as referências científicas foram usadas de forma distorcida na CPI e cita que o único pesquisador com estudos sobre a Covid foi o ex-reitor da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) Pedro Hallal.
 
“A maior parte das referências acadêmicas, na CPI, foi mobilizada pelos governistas, de maneira distorcida. Além disso, durante a CPI, o único pesquisador ativo em estudos sobre a Covid foi Pedro Hallal”, reforça. Os dados mostram ainda como as discussões em uma CPI costumam envolver muito mais visões políticas e ideológicas do que critérios técnicos que uma investigação exige.
 
O estudo mostra como aliados do ex-presidente tentaram dar um verniz técnico a suas falas, com o uso de palavras com fundo técnico. Termos como “randomizados”, “metanálise” e “preprint” foram mais utilizados por bolsonaristas do que por oposicionistas.
 
No caso da CPI da Pandemia, senadores apoiadores de Bolsonaro defenderam, ao longo dos trabalhos da comissão, a possibilidade de prescrição de remédios ineficazes contra a Covid-19, como a cloroquina. Também criticaram medidas de distanciamento social decretadas por gestores locais para evitar a proliferação do coronavírus.
 
Apesar desse viés político de uma CPI, o relatório reforça o espaço que os temas investigados por essas comissões costumam ganhar no ambiente público. Segundo o texto, a CPI da Pandemia “escancarou a urgente necessidade da abertura da ciência para a sociedade”.
 
“Um ponto relevante deve ser exposto aqui. Entende-se que políticos não são aptos para tratar de ciência e, portanto, não caberia à CPI esse papel legitimador. Apesar disso, espaços públicos e de visibilidade são importantes para o debate sobre os processos científicos, principalmente durante e após uma pandemia. De forma semelhante à dos percalços do jornalismo em enfrentar a desinformação, em que pouco se consegue desarmar e combater textos com informações falsas lidas como notícias, a CPI escancarou a urgente necessidade da abertura da ciência para a sociedade”, afirma.
 
Outras CPI’s
Atualmente, estão em debate no Congresso Nacional diversos pedidos de CPI.
 
O principal deles envolve a investigação sobre os atos golpistas de 8 de janeiro em Brasília.
 
Também são motivo para aberturas de CPIs as invasões do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a suposta fraude contábil da Americanas, denúncias de manipulação de resultados esportivos por causa de apostas online e a acusação contra aliados de Bolsonaro por causa de pacotes de joias trazidos ao Brasil de presente do reino da Arábia Saudita.
 
Fonte: CNN