Dieese faz considerações sobre o pacote de ajuste fiscal anunciado pelo governo em novembro de 2024
As principais medidas anunciadas
1. Limitação do aumento real do salário mínimo (SM)
•Alteração da política de valorização do salário mínimo (inflação + PIB de dois anos antes), limitando o aumento real (PIB) ao teto de 2,5%. De outro lado, também estabelece um piso para o aumento real do salário mínimo de 0,6%, nos anos de recessão.
2. Redução da cobertura do abono salarial
•Redução da faixa de renda para quem recebe o abono, que atualmente é destinado a pessoas com carteira assinada ou servidores públicos de renda média mensal de até 2 SM (R$ 2.824,00). A proposta limita o abono a pessoas com renda média de até R$ 2.640,00 para o ano-base 2023. Prevê apenas a correção inflacionária até atingir 1,5 salário mínimo, permanecendo nesse patamar a partir daí.
3. Aumento do teto de isenção do imposto de renda (IR) e criação de alíquota progressiva para rendas maiores
•O limite atual de isenção do IR é de 2 SM. A proposta é elevar a isenção até a faixa salarial de R$ 5.000,00.
•Criação de alíquota progressiva de 10% ao mês para quem ganha a partir de R$ 50.000,00 por mês.
4. Benefício de Prestação Continuada (BPC)
•Medidas de controle com o objetivo de combater fraudes, entre elas a obrigatoriedade de biometria para novos benefícios e atualizações cadastrais, além de identificação de CID - Código Internacional de Doenças, no caso do BPC.
Focalizar o BPC em pessoas incapacitadas para a vida independente e para o trabalho, sem indicar se essa avaliação levará em conta um critério biopsicossocial.
•Medidas de restrição para a concessão: inclusão da renda de cônjuge e companheiro não coabitante e renda de irmãos, filhos e enteados (não apenas solteiros) coabitantes e em uma mesma família. Atualmente, para a concessão do benefício (BPC), não entram no cálculo da renda per capita os benefícios de até um salário mínimo, como o Bolsa Família ou outro BPC. Isso permite que mais de uma pessoa da mesma família receba o BPC, sem que a renda ultrapasse o limite. A proposta é de que a renda de um benefício volte a contar para o acesso a outro.
5. Bolsa Família
•Medidas de controle com o objetivo de combater fraudes, entre elas, a obrigatoriedade de biometria para novos inscritos e atualizações cadastrais, além do cruzamento de informações com o cadastro de concessionárias de serviços públicos.
•Medidas de restrição para a concessão, como a exigência de que a inscrição ou atualização de famílias unipessoais seja realizada no domicílio.
•Ato do poder Executivo poderá alterar valor de renda familiar que permite permanência no Programa e o prazo para desligamento.
6. Mudanças na aposentadoria dos militares Serão implementadas mudanças na aposentadoria dos militares, incluindo:
•Extingue a “morte ficta”: em caso de expulsão do militar da corporação, não será concedida pensão por “morte ficta”. (Quando o militar é condenado ou expulso das Forças Armadas após processo administrativo, mas as famílias passam a receber o benefício previdenciário integralmente).
Fixa em 3,5% da remuneração a contribuição do militar para o Fundo de Saúde até janeiro de 2026.
•Extingue a pensão para filhas adultas após a morte do militar. (Desde 2001, a norma vale para novos militares, no entanto, quem já estava nas Forças Armadas naquele momento segue na regra de, após a morte, transferir a pensão para as filhas)
•Estabelece progressivamente idade mínima para passagem à reserva remunerada.
7. Controle de benefícios fiscais
•Em situações de déficit fiscal primário, não será permitido conceder, ampliar ou prorrogar benefícios fiscais a setores econômicos (isenções ou reduções de tributação identificadas como “gastos tributários”).
8. Combate aos "supersalários"
•Prevê que apenas as exceções ao teto remuneratório nacional definidas em lei complementar terão vigência e serão aplicadas a todos os poderes e esferas de governo.
9. Emendas parlamentares (PLP 175)
•Restringe crescimento das emendas impositivas aos limites do arcabouço fiscal e veda a expansão real das emendas não impositivas, de modo que o montante total das emendas deverá crescer sempre obedecendo ao arcabouço.
•Destina 50% dos valores de emendas de comissão do Congresso Nacional para o Sistema Único de Saúde, observados critérios e diretrizes técnicas.
•Bloqueia as emendas parlamentares proporcionalmente aos bloqueios do poder Executivo, com limite de 15% do total das emendas (previsão de R$ 7,5 bi, em 2025).
10. Servidores públicos
•Distribuir as nomeações e posses de provimentos e concursos em 2025 de forma mais espaçada, com meta de redução de gastos de pelo menos R$ 1 bilhão.
•Caso ocorra déficit primário ou redução das despesas discricionárias, será acionado um gatilho de reenquadramento que vedará, a partir de 2027, aumento real acima de 0,6% na despesa com pessoal e encargos.
11. Desvinculação de Receitas da União (DRU)
•Prorroga a DRU, que perderia vigência no final de 2024 até 31 de dezembro de 2032. São desvinculados 30% (trinta por cento) da arrecadação da União relativos às contribuições sociais, às contribuições de intervenção no domínio econômico, às taxas e às receitas patrimoniais. Permanecem como exceção a esse dispositivo o salário-educação, recursos para o fundo social da exploração de petróleo e gás natural e as contribuições sociais do trabalhador e do empregador à Seguridade Social.
Fonte:Dieese