Em 9 meses, polícias mataram mais que no 1º ano inteiro da gestão Tarcísio

Em 9 meses, polícias mataram mais que no 1º ano inteiro da gestão Tarcísio
Publicado: 04 de novembro, 2024
Em nove meses, as polícias Civil e Militar do estado de São Paulo mataram 580 pessoas, ultrapassando o número de mortes cometidas pelas duas corporações em 2023 inteiro — no primeiro ano da gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e do secretário da Segurança Pública Guilherme Derrite, que tinha contabilizado 504 vítimas. Os dados foram divulgados pela Secretaria da Segurança Pública (SSP) nesta quinta-feira (31/10).
 
 
O período de janeiro a setembro deste ano também já superou as mortes praticadas em 2022, que somou 421 vítimas, e em 2021, com 578 mortes — anos que tiveram recordes de queda da letalidade policial após o início da implementação do programa de câmeras nas fardas da PM paulista e outros mecanismos de controle do uso da força.
 
É o décimo aumento consecutivo desse indicador durante o governo atual. De janeiro a setembro, a alta da violência policial foi de 55%, considerando as duas polícias, em casos durante o serviço e na folga. É como se as polícias tivessem matado duas pessoas por dia em 2024.
 
 
Apenas o mês de setembro subiu de 47 para 70 mortes — aumento de 48,9% a mais na comparação entre 2023 e 2024. É o pior indicador para este mês desde 2018, quando houve 74 vítimas. Este também foi o segundo pior número para o terceiro trimestre, com 207 pessoas alvo do braço armado do Estado, desde o ano de 2018 (com 210 mortos).
 
Além disso, enquanto as mortes praticadas em serviço cresceram 75,2% — de 283 para 496 —, as ocorridas durante a folga caíram 7,6% — de 91 para 84. A comparação acende um alerta, pois as ocorrências em serviço são as que, em tese, o Estado tem como controlar.
 
 
A atual gestão teve como marca duas operações extremamente letais na Baixada Santista, vistas como vingança após assassinatos de policiais: a Escudo, entre julho e setembro de 2023, que deixou 28 vítimas, e a Verão, entre janeiro e março de 2024, com 56 vítimas. Esses são os números indicados pela Secretaria da Segurança Pública (SSP) como decorrentes dessas operações. Na região, no entanto, as mortes pelas polícias foram muito maiores em cada período, como a Ponte mostrou.
 
 
‘O grupo matador ganhou’
Para Gabriel Feltran, diretor de pesquisa no Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS, na sigla em francês), e professor titular da Sciences Po na França, há um respaldo institucional que incentiva essas mortes. “A ideia é matar. O próprio Derrite foi investigado, pelo menos oficialmente, por 16 homicídios”, enfatiza. “Esse grupo com a ideologia de matar bandido sempre esteve nas polícias de São Paulo, mas estava um pouco controlado nos últimos anos.”
 
 
O pesquisador cita como exemplo o fato de que a iniciativa do programa de câmeras corporais na PM partiu da própria corporação, que estudava implementação da medida desde 2014 e a concretizou a partir de 2021.
 
 
“Existia um grupo na polícia preocupado em, pelo menos, manter uma imagem, com dados mais baixos de letalidade policial. Não tem mais, né? No braço de ferro interno, o grupo matador ganhou e está exercendo suas políticas abertamente.”
 
 
 
Em 2023, o governador Tarcísio deixou de investir de R$ 57 milhões ao programa de câmeras nas fardas e transferiu a verba para outras ações, como o pagamento de diárias de policiais. Em maio deste ano, a gestão Tarcísio anunciou um novo contrato para substituir as 10 mil câmeras existentes por outras 12 mil. Na época, durante um evento em Campinas (SP) o governador afirmou: “Queremos uma população segura, e não um policial vigiado.”
 
 
Porém, tanto o edital quanto o contrato homologado foram alvo de críticas por retirar o recurso de gravação ininterrupta por uma manual, em que o PM escolhe quando começa a gravar a ocorrência — o que, na prática, inviabiliza o controle e o registro das ações policiais.
 
 
 
 
Fonte: ICL Notícias