Estagflação? Cenário de crescimento baixo e inflação alta volta a rondar Brasil

Estagflação? Cenário de crescimento baixo e inflação alta volta a rondar Brasil
Publicado: 11 de março, 2021

 O tombo de 4,1% do Produto Interno Bruto (PIB) no ano passado e a certeza de que uma queda desse tamanho não se repetirá tão cedo deixou por um instante a impressão de que o pior da crise causada pela pandemia ficou para trás. Mas a realidade pode não ser bem assim. 

 
A depressão histórica do ano passado, de fato, ficou para trás, mas isso não significa que 2021 será fácil. As expectativas para o crescimento econômico deste ano, que já estavam fracas, começam a ser paulatinamente revisadas para baixo por economistas, analistas e investidores, desanimados em boa parte pelo avanço rápido da pandemia e lento das vacinas, o que prolonga também a agonia econômica.
 
Ao mesmo tempo, do outro lado, as expectativas para inflação estão todas sendo revisadas para cima, numa compreensão cada vez mais ampla de que o choque de preços que se viu no ano passado nos alimentos não é mais nem tão pontual, nem tão temporário quanto se chegou a acreditar. 
 
Essa combinação oposta de fatores está desenhando, mais um vez, um cenário que não é novidade para o Brasil e que é perverso para a população: o de crescimento baixo com inflação alta.
 
Na prática, significa não só que a renda das pessoas e a produção das empresas não crescem, como também terão que enfrentar preços mais caros. Combustíveis, alimentos e serviços públicos como de luz e água são alguns que devem seguir subindo para os consumidores neste ano.
 
Preços em alta, diz a teoria, costumam ser sintoma de uma economia que está aquecida, tanto quanto uma economia fraca, com a renda e o consumo em baixa, deveria resultar em inflação também fraca. 
 
No Brasil da pandemia, porém, os preços seguiram subindo mesmo com desemprego recorde e renda em queda, resultado de uma tempestade de fatores que misturam dólar caro, produtos básicos em alta no mercado internacional, indústrias que sofreram com falta de insumos e uma injeção de estímulo cavalar, mas passageira, que veio com o auxílio emergencial no ano passado. 
 
O problema da inflação muito alta é que ou ela deixa as coisas muito caras e derruba o consumo, ou obriga o Banco Central a subir juros para controlá-la, o que também derruba o consumo. De um jeito ou de outro, acaba redundando em crescimento ainda mais baixo, e isso só piora os prospectos para 2021. 
 
"A inflação é mais um limitador do crescimento e, em um contexto de câmbio muito depreciado, obriga o Banco Central a reagir e a subir os juros mais rápido, ou seja, retirar o estímulo mais cedo"
 
Alessandra Ribeiro, diretora de macroeconomia da Tendências Consultoria
Alta dos juros
A Selic, a taxa básica de juros do Brasil, está em 2% ao ano, o menor nível de sua história e também muito abaixo da inflação, o que deixa os rendimentos negativos e é uma bomba de estímulo para que os capitais migrem do mercado financeiro para a economia real. A estimativa de economistas é que, num ambiente normal, sem a necessidade de estímulos extras, os juros brasileiros deveriam estar por volta dos 6%. 
 
Quanto mais abaixo eles estiverem desse nível, mais estímulo o Banco Central está dando para que a economia cresça. É essa diferença que deve ser reduzida bastante já neste ano por conta da inflação, mesmo com a economia ainda precisando da ajuda.
 
A Tendências Consultoria, que esperava a Selic em 4% até o final deste ano, já fala na taxa a 4,5% até lá, para uma inflação que, nas suas projeções mais recentes, também pode ir até os 4,5%. O resultado repetiria o do ano passado e seria o maior desde 2016.
 
O PIB, por sua vez, teve a projeção reduzida de 2,9% para 2,7% pela Tendências, com dois trimestres de queda já praticamente encomendados para este primeiro semestre. 
 
Rodada de revisões 
Andrea Damico, economista-chefe da gestora de investimentos Armor Capital, é ainda mais pessimista. Para ela, a inflação deste ano será de no mínimo 4,6% - “mas isso pode acabar mais alto e há um risco bem grande de chegar a 5%”, diz. 
 
Nesta toada, os juros podem acabar em 5% ou até mesmo nos 6% ainda neste ano, ceifando de vez as expectativas de uma recuperação econômica mais rápida ou mais robusta. 
 
"Não tem como a piora da pandemia não afetar a atividade econômica. Há uma correlação muito elevada entre as duas coisas, por conta da mobilidade. Não é só porque as pessoas são obrigadas a ficar em casa, elas também ficam porque têm medo."
 
Andrea Damico, economista-chefe da Armor Capital
 
As duas economistas não estão sozinhas nas revisões. O Boletim Focus, relatório do Banco Central que recolhe semanalmente as projeções de uma centena de casas de análise, aponta uma tendência geral de revisões para cima nos preços e para baixo no PIB. No boletim mais recente, a projeção média para a inflação subiu para 3,98% e, para o PIB, caiu para 3,26%. 
 
Estagflação?
Apesar do coquetel desagradável, de pouco PIB e muita inflação, Alessandra Ribeiro, da Tendências Consultora, ainda afasta o rótulo de “estagflação” --o termo ficou famoso nos anos de 1970, quando economias importantes como Estados Unidos e Reino Unido viveram anos de preços fora do controle com baixo crescimento.
 
“Estamos falando de uma atividade fraca, mas que ainda será de um pequeno crescimento e uma recuperação”, disse. “A inflação está subindo mas também ainda está dentro da meta; não é um cenário de inflação saindo completamente do controle.”
 
Fonte: CNN