Estudo da USP indica que Sars-Cov-2 pode matar células de defesa do paciente e deixar sequelas no sistema imunológico

Estudo da USP indica que Sars-Cov-2 pode matar células de defesa do paciente e deixar sequelas no sistema imunológico
Publicado: 18 de setembro, 2020

 Um estudo conduzido pela USP de Ribeirão Preto (SP) indica que o novo coronavírus pode infectar e matar diferentes tipos de linfócitos, que são as células de defesa do organismo presentes no sangue.

 
O artigo foi publicado como prévia (pré-publicação) em uma plataforma internacional de compartilhamento de dados científicos e está em fase de revisão pela comunidade científica, mas apresenta sinais de que a infecção pela Sars-CoV-2 tem potencial de deixar sequelas no sistema imunológico do paciente.
 
Na análise, os pesquisadores avaliaram amostras sanguíneas de cinco voluntários sem a Covid-19 para testar a hipótese de que o novo coronavírus seria capaz de prejudicar a defesa do organismo.
 
Essa possibilidade foi levantada após a identificação de linfopenia, ou seja, queda acentuada de linfócitos, em pacientes hospitalizados em estado grave com o novo coronavírus.
 
A concentração sanguínea dos voluntários sadios foi incubada com o Sars-Cov-2 durante dois dias. Após análises com anticorpos, os cientistas comprovaram que o processo de infecção havia ocorrido.
 
Por meio do RT-PCR, mesmo teste molecular feito para diagnosticar a Covid-19 em pacientes, foi possível identificar um aumento de até 100 vezes na quantidade do vírus no sangue. Segundo a pesquisa, o resultado indica que houve infecção e replicação no interior do sistema imunológico das amostras.
 
Tentativa de bloqueio
De acordo com pesquisadores, no sangue incubado com o vírus, as análises mostraram que os monócitos, células do sangue que fazem parte do sistema imunológico, foram os mais suscetíveis ao novo coronavírus, com infecção em 44% delas.
 
Na sequência, o resultado indica que o linfócito T CD4, responsável pela coordenação da defesa por meio das moléculas citocinas, apresentou 14%. Já os linfócitos T CD8, capazes de reconhecer e matar células atingidas pelo vírus, tiveram 13% de infecção, enquanto que os linfócitos B, produtores de anticorpos, registraram 7% de comprometimento pela Covid-19.
 
Com estudos detalhados nos linfócitos T CD4 e T CD8, foi possível notar que a entrada do vírus criou um mecanismo de morte celular programada. Segundo o artigo, isso pode explicar o quadro de linfopenia, hipótese levantada pelos cientistas no início das pesquisas.
 
Para barrar a infecção, em outro experimento os pesquisadores utilizaram um inibidor da proteína que facilita a entrada do novo coronavírus no organismo, a ACE 2.
 
O tratamento até reduziu a carga viral nas amostras de sangue, mas não eliminou totalmente. De acordo com o estudo, isso sugere a existência de um mecanismo alternativo de infecção no sistema de defesa, assim como acontece com o adenovírus e o HIV.
 
2ª etapa
Após a análise da infecção manipulada, amostras de sangue de 22 pacientes infectados com a Covid-19 e internados em estado moderado ou grave na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital das Clínicas (HC) de Ribeirão Preto também indicaram que o vírus é capaz de afetar a defesa do organismo.
 
O estudo escolheu 15 exemplares para analisar as diferenças individuais nas taxas de células positivas para o novo coronavírus. Essa parte da pesquisa mostrou que os linfócitos B foram os mais afetados em todos os pacientes.
 
Por ser a célula responsável pela produção de anticorpos, levantou-se a hipótese, que agora está em investigação, de que essa seria a explicação para algumas pessoas não apresentarem imunidade após a infecção.
 
Em relação aos linfócitos T CD4 e aos monócitos, os cientistas identificaram que quanto mais avançada estava a doença, maiores eram as taxas de células de defesa infectadas.
 
Usando um microscópio e técnicas de iluminação fluorescente, a pesquisa confirmou a presença de uma fita dupla do RNA (material genético) do novo coronavírus, que, segundo o artigo, pode indicar que o Sars-Cov-2 estava em processo de replicação no organismo.
 
Na sequência do estudo, os pesquisadores querem entender qual o tipo de efeito futuro que a infecção das células de defesa pode ocasionar no sistema imunológico dos pacientes que já se recuperaram da doença.
 
Fonte: G1