Feminicídio e violência doméstica são temas de debate no Sinsaúde
A insegurança das mulheres e medidas que podem protegê-las da violência e do feminicídio, foram temas debatidos nesta quinta-feira (20/03), na sede central do Sinsaúde com a participação da representante da Delegacia de Defesa da Mulher de Campinas, Solange Ribeiro Farias, e do advogado criminal André Luís de Oliveira. A abertura do evento foi conduzida pelo diretor jurídico da entidade, Paulo Gonçalves, e a mediação foi feita pela jornalista Sirlene Nogueira. A transmissão ocorreu ao vivo pelo Instagram.
“Você, que é mulher, não pode deixar de denunciar as agressões”, destacou Paulo Gonçalves ao abrir o encontro e apresentar os participantes. Para dar início ao debate sobre um tema tão relevante e atual, especialmente diante do aumento dos casos de feminicídio no Brasil, a jornalista Sirlene Nogueira apresentou dados estatísticos. “Somente em São Paulo, nos últimos quatro anos, houve um aumento de 96% nos casos de feminicídio. Em 2025, foram registradas 270 mortes de mulheres, contra 136 em 2021”, afirmou. Os dados são do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e foram divulgados em março de 2026.
Segundo a policial Solange Ribeiro Farias, ainda há resistência por parte das mulheres em buscar ajuda nas delegacias especializadas. “Muitas sentem vergonha ou medo de serem julgadas. São mulheres fragilizadas, que precisam de acolhimento.
Na delegacia, elas recebem apoio, orientações sobre quais medidas tomar”, explicou. Ela também contou que algumas vítimas não podem voltar para casa depois que fazem a denúncia e, por isso, são encaminhadas para uma casa abrigo até o agressor ser preso.
Inversão de valores
O advogado André Luís de Oliveira ressaltou que há uma inversão de valores na sociedade. “Quem deveria sentir vergonha é o agressor, não a vítima. Precisamos compreender o perfil dessas mulheres, que muitas vezes sofrem violência psicológica por anos e só procuram ajuda após a agressão física”, afirmou. Os especialistas também destacaram que é comum existir a pressão familiar para que a denúncia não seja feita.
Ele atribui essa situação à cultura machista ainda presente na sociedade, que naturaliza o sofrimento feminino. Também alertou para a influência de conteúdos que banalizam a violência contra a mulher, especialmente entre os jovens.
No entanto, ambos destacaram que houve avanços culturais importantes, especialmente após a implementação da Lei Maria da Penha. “Mais recentemente, também houve a criminalização do feminicídio no Brasil, em 2015, como circunstância qualificadora do homicídio”, completou o advogado.
Solange complementou que a violência doméstica não começa com agressões físicas, mas segue uma escalada gradual. “Começa com controle: ‘não use essa roupa’, ‘não fale com essas pessoas’, ‘não quero que você vá à casa dos seus pais’. Há também o silêncio como forma de punição”, explicou.
Durante o bate-papo, também foi abordada a medida protetiva, que determina, entre outras restrições, que o agressor não se aproxime da vítima. No entanto, os especialistas alertaram que, embora seja um instrumento importante, nem sempre garante a segurança. “Em alguns casos funciona, mas, infelizmente, na maioria não”, destacou o advogado.
O advogado também citou o uso do chamado “botão do pânico” como uma ferramenta eficaz. “Ele possibilita uma resposta imediata das autoridades”, explicou. As vítimas podem chamar uma viatura quando o agressor se aproxima.
A diretora sindical de assuntos culturais, Regiane Amaro Teixeira, destacou a importância do evento e a necessidade de ampliar o debate sobre o tema. “A violência contra a mulher é uma questão complexa e urgente. Precisamos falar mais sobre isso, conscientizar e criar espaços de diálogo que incentivem a denúncia e o acolhimento das vítimas”, afirmou.
Durante o encontro também foram mencionados canais e serviços de apoio às vítimas, como o Disque 180, as Salas Lilás em delegacias convencionais (em municípios sem atendimento especializado) e a delegacia virtual, por exemplo.
Fonte: Sinsaúde Campinas e Região