Fim da contribuição sindical obrigatória ameaça direitos constitucionais, diz Fachin
Para acabar com a obrigatoriedade da contribuição sindical, a reforma trabalhista deveria ter sido precedida de um "debate profundo" sobre o sistema de representação dos trabalhadores. É o que afirma o ministro Luiz Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal. Sem essa discussão, diz ele, o fim do chamado "imposto sindical" coloca em risco direitos garantidos pela Constituição Federal. A opinião do ministro está em despacho desta quarta-feira (30/5), em que ele adianta parte do posicionamento sobre o assunto, mas não chega a declarar a inconstitucionalidade desse trecho da reforma. O despacho é resposta a pedido de declaração monocrática de inconstitucionalidade. Mas, como o caso está pautado para ser julgado no dia 28 de junho no Plenário do STF, Fachin entendeu que a melhor solução seria encaminhar o pedido ao colegiado, sem deferir a cautelar. O ministro é o relator de todas as 15 ações diretas de inconstitucionalidade contra a contribuição facultativa. Tramitam outras oito questionando diversos trechos da Lei 13.647/2017, que mudou mais de 100 artigos da CLT. Nesta quarta, Fachin se manifestou na segunda ação contra a reforma e a primeira questionando a mudança na contribuição (ADI 5.794), proposta pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes Aquaviário e Aéreo, na Pesca e nos Portos. Dezenas de entidades e sindicatos atuam como amici curiae no processo. O ministro traçou um histórico sobre o Direito sindical brasileiro e afirmou que o modelo de sindicalismo criado pela Constituição sustenta-se em um tripé formado por unicidade sindical, representatividade obrigatória e custeio das entidades sindicais por meio de um tributo. Este último é a contribuição sindical, expressamente autorizada pelo artigo 149, e imposta pela parte final do inciso IV, do artigo 8º, da Constituição da República. “Assim sendo, na exata dicção do texto constitucional, é preciso reconhecer que a mudança de um desses pilares pode ser desestabilizadora de todo o regime sindical”, afirma o ministro. Para o julgador, o legislador não observou o quadro geral da situação sindical ao acabar com o tributo sem oferecer um período de transição para a implantação de novas regras relativas ao custeio das entidades sindicais. “Assim, sob a perspectiva da inconstitucionalidade material, o argumento também ganha relevo em face da real possibilidade de frustrar e fazer sucumbir o regime sindical reconhecido como direito fundamental social pelo constituinte de 1988”, diz. Fachin declarou que “admitir a facultatividade da contribuição, cuja concepção constituinte tem sido historicamente da obrigatoriedade, pode, ao menos em tese, importar um esmaecimento dos meios necessários à consecução dos objetivos constitucionais impostos a estas entidades”. O ministro considerou ainda que a mudança no tributo representa renúncia fiscal pela União, que por isso deveria ter expressamente indicado a estimativa do impacto orçamentário e financeiro aos cofres públicos, com base no artigo 113 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. Outro debate Assim como na análise sobre a contribuição sindical, Luiz Edson Fachin considerou inconstitucional qualquer mudança legislativa que restrinja o acesso à Justiça. Para o ministro Luís Roberto Barroso, relator desse outro processo, os dispositivos questionados pela PGR são válidos por fazerem com que trabalhadores sejam mais responsáveis antes de procurar a Justiça do Trabalho. O julgamento foi suspenso por pedido de vista do ministro Luiz Fux.
O Supremo já começou a julgar outra ação contra a Lei 13.647/2017, na qual a Procuradoria-Geral da República quer derrubar trecho que obriga a quem perder litígios pagar custas processuais e honorários advocatícios e periciais de sucumbência, mesmo se a parte for beneficiária da Justiça gratuita.
Ações no STF contra a reforma trabalhista
Autor
Número
Trecho questionado
Procuradoria-Geral da República
ADI 5.766
Pagamento de custas
Confederação dos trabalhadores
em transporte aquaviário (Conttmaf)ADI 5.794
Fim da contribuição sindical obrigatória
Confederação dos trabalhadores de segurança privada (Contrasp)
ADI 5.806
Trabalho intermitente
Central das Entidades de Servidores Públicos (Cesp)
ADI 5.810
Contribuição sindical
Confederação dos Trabalhadores
de Logística ADI 5.811
Contribuição sindical
Federação dos trabalhadores de postos (Fenepospetro)
ADI 5.813
Contribuição sindical
Federação dos Trabalhadores em Empresas de Telecomunicações (Fenattel)
ADI 5.815
Contribuição sindical
Federação dos trabalhadores de postos (Fenepospetro)
ADI 5.826
Trabalho intermitente
Federação dos Trabalhadores em Empresas de Telecomunicações (Fenattel)
ADI 5.829
Trabalho intermitente
Confederação dos Trabalhadores em Comunicações e Publicidade (Contcop)
ADI 5.850
Contribuição sindical
Confederação Nacional do Turismo
ADI 5.859
Contribuição sindical
Confederação dos Servidores Públicos
do Brasil (CSPB)ADI 5.865
Contribuição sindical
Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra)
ADI 5.867
Correção de depósitos
Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra)
ADI 5.870
Limites a indenizações
Confederação Nacional dos Servidores Públicos Municipais (CSPM)
ADI 5.885
Contribuição sindical
Federação das Entidades Sindicais dos Oficiais de Justiça do Brasil (Fesojus)
ADI 5.887
Contribuição sindical
Confederações Nacionais dos Trabalhadores em Turismo e Hospitalidade (Contratuh); em Transportes Terrestres (CNTTT); na Indústria (CNTI) e em Estabelecimento de Ensino e Cultural (CNTEEC)
ADI 5.888
Contribuição sindical
Confederação Nacional dos Trabalhadores Metalúrgicos (CNTM)
ADI 5.892
Contribuição sindical
Confederação Nacional dos Trabalhadores
na SaúdeADI 5.900
Contribuição
sindical
Federação Nacional dos Trabalhadores em Serviços, Asseio e Conservação, Limpeza Urbana, Ambiente e Áreas Verdes (Fenascon)
ADI 5.912
Contribuição
sindical
Confederação Nacional dos Trabalhadores Metalúrgicos
ADI 5.938
Atividade insalubre para grávidas
Federação Nacional dos Guias de Turismo
ADI 5.945
Contribuição
sindical
Confederação Nacional dos Trabalhadores do Comércio
ADI 5.950
Contrato intermitente
Fonte: Conjur