Grosseria dentro de hospitais gera ainda mais hostilidade

Grosseria dentro de hospitais gera ainda mais hostilidade
Publicado: 03 de abril, 2018
Nos últimos anos, tenho frequentado muitos hospitais, felizmente, na maioria das vezes na condição de visitante ou de acompanhante.
 
No domingo à noite, visitava minha amiga-irmã internada no Hospital AC Camargo. Com metástases no pulmão, ossos e meninge, ela tem sentido dores horríveis só contidas (por curto período de tempo) com morfina.
 
 
Respondi que ela bem que merecia uma massagem nos pés para encarar o plantão que iniciava. E, se fosse permitido, eu mesma poderia fazer. Ela deu uma risada, agradeceu e saiu.
 
Sou fã do pessoal da enfermagem, gente de fundamental importância dentro de um hospital e que nem sempre é valorizado.
 
Pelo contrário. Os conselhos de enfermagem colecionam casos e mais casos de todo tipo de violência contra esses profissionais que estão na linha de frente dos cuidados. De má remuneração e sobrecarga de trabalho a violência física e psicológica.
 
E, claro, a corda sempre arrebenta para o lado deles. Ninguém pensa no erro como algo sistêmico, que diz respeito a todos. Em geral, erros graves (como troca de medicação) ocorrem porque há problemas de processos, de checagens e rechecagens dentro da instituição. 
 
Eu mesma presenciei um erro desses há duas semanas. Minha irmã estava internada em um hospital na Lapa (zona oeste de São Paulo) e a enfermeira chegou para repor o antibiótico e o antiinflamatório que ela estava usando.
 
Ao perceber que só havia uma medicação, minha mana questionou a enfermeira. A profissional percebeu então que a colega havia aplicado o antiinflamatório da minha irmã na paciente que estava na cama ao lado. Correu e desfez o erro.
 
Por sorte, tudo acabou bem. Mas não dá para contar com a sorte quando se trata de cuidados médicos. Existem hoje protocolos muito bem definidos para minimizar erros dentro dos hospitais.
 
E também é muito salutar que o paciente (ou o acompanhante) fique atento durante esse cuidado. Nunca se esquecendo, é claro, de que errar é humano e que partir para a grosseria pode piorar a situação.
 
Um estudo citado recentemente na coluna do médico Perri Klass, no jornal "The New York Times", mostra que a hostilidade por parte de familiares de pacientes pode afetar as habilidades médicas ou a capacidade de tomada de decisões.
 
Outros estudos revelam que a hostilidade entre os próprios profissionais (chefes que maltratam subordinados) também trazem impacto negativo não só para os que sofrem diretamente o bullying (como depressão e ansiedade), mas também para os pacientes que eles vão cuidar.
 
Ou seja, em qualquer situação, grosseria tende a gerar mais grosseria, raiva, estresse e desejo de revanche, mesmo que inconscientemente. E se existe um local que, definitivamente, não precisa desses sentimentos negativos esse lugar é o ambiente hospitalar.
 
Fonte: Folha de SP