Investimentos movimentam o mercado da saúde privada em Rio Preto

Investimentos movimentam o mercado da saúde privada em Rio Preto
Publicado: 04 de agosto, 2021

 Nos últimos anos, a rede de saúde privada em Rio Preto tem ganhado novos ares com a chegada de grandes grupos e operadoras, seja na aquisição de hospitais, centros ou planos de saúde. Essa movimentação, discretamente, tem começado a mudar o perfil de modelos de negócio na área, estremecendo o mercado e causando, de um lado, expectativa e, de outro, reação.

 
O Grupo São Francisco, de Ribeirão Preto, hoje adquirido pelo Sistema Hapvida, foi um dos primeiros a pisar em território rio-pretense, com a compra do plano de saúde da Santa Casa, em janeiro de 2019.
 
 
No ano passado, a holding de serviços Hospital Care, de Campinas, comprou 60% do grupo Austa e se tornou acionista majoritária da empresa, que apresentou um projeto de investimento de pelo menos R$ 60 milhões em dois anos, plano que começou a ser sentido em questão de meses.
 
No final do ano, a holding se fundiu ao grupo e ao Instituto de Moléstias Cardiovasculares (IMC) e, este ano, a reportagem apurou que a holding tem feito propostas para adquirir outras empresas médicas, na área de cardiologia e neurologia. Procurada pelo Diário, a Hospital Care disse que “não comenta especulações de mercado”.
 
Outro que discretamente chegou a Rio Preto foi o grupo Dasa, que atua com medicina diagnóstica no País e América Latina. No final do ano, a companhia adquiriu o Instituto de Hematologia (Hemat). Na última semana, o Sistema Hapvida fez uma oferta ao grupo HB Saúde. O negócio está estimado em R$ 450 milhões e inclui alguns imóveis, mas não o caixa-líquido da companhia. Caso a compra se concretize, pelo menos R$ 510 milhões terão sido investidos por empresas do setor na cidade.
 
Avaliado como um dos maiores sistemas de saúde do Brasil, com cerca de 7,1 milhões de clientes em todas as regiões, o Hapvida atua com um sistema verticalizado de operação, ou seja, infraestrutura de rede própria, com hospitais, clínicas, pronto atendimentos e centros de diagnóstico.
 
Em fevereiro deste ano, a companhia, que é de Fortaleza (CE), se fundiu também com outra grande operadora: a NotreDame Intermédica (GNDI), formando um gigante com mais de 13,6 milhões de usuários e uma receita combinada de R$ 18,2 bilhões. A fusão das empresas reforça uma estratégia que já tem sido sentida em outras cidades do país: o impacto às cooperativas médicas.
 
O Diário teve acesso ao estudo da fusão das empresas, que destaca as principais regiões do Brasil em que o avanço do grupo mostra este impacto, bem como as possíveis aquisições de grande porte, com 44 operadoras mapeadas e com foco em áreas de ação da Unimed.
 
Uma das possíveis aquisições apontadas é o HB Saúde, de Rio Preto, empresa que aparece em 7º lugar na lista do grupo, com 126 mil beneficiários. No projeto do grupo, a área de ação da cooperativa na região chega a 131 mil vidas. Com a possível aquisição, a estimativa é de arrebanhar 64 mil desses beneficiários.
 
Para isso, o estudo aposta em um projeto que conta com a baixa de custo dos planos, cuidado coordenado, aperfeiçoamento de relacionamento, relação com os prestadores, entre outras diretrizes.
 
Para que a compra do HB Saúde seja concretizada, é preciso que a transação seja aprovada pelos cerca de 500 acionistas, que foram avisados por meio de comunicado.
 
O Diário apurou que, nos bastidores da transação, existem dois tipos de reação entre os acionistas: aqueles que apoiam a transação, tendo em vista o fundo de investimentos que pode estar por vir, e os que não estão contentes com a possível venda, devido à reserva de saída e a forma como a negociação está sendo feita. Já a diretoria garantiu aos acionistas, após a primeira reunião, que não tem um lado e que as conversas “estão embrionárias”.
 
O Diário falou com um dos médicos contrários à venda do HB Saúde, que preferiu não ter o nome divulgado. Para ele, a tendência destas grandes empresas é diminuir os custos visando o lucro e centralizando os serviços, o que impactaria na rentabilidade dos médicos e na liberdade do paciente escolher hospitais e centros clínicos.
 
Procurado pela reportagem, o sistema Hapvida disse que aguarda a aprovação dos órgãos reguladores (Cade e ANS) para se manifestar. O Diário entrou em contato com o HB Saúde, mas não obteve retorno.
 
Capacidade de investimento
Para os consultores Osias Brito e Maurício Nozawa, da BR Finance, empresa especializada em fusões e aquisições na área da saúde, movimentos de grandes empresas migrando para além das capitais têm acontecido por haver boas capacidades de crescimento. "Rio Preto é uma cidade promissora, em que já se chega com alto potencial no polo acadêmico e excelente estrutura, uma região que tem tradição no setor da saúde e forte poder econômico", explicaram.
 
Para eles, o alto interesse por planos de saúde acontece pela redução de custo e aumento de rentabilidade que surgem com a verticalização, o que permite o uso do hospital para a modalidade, barateando para o operador e para o paciente.
 
"O HB Saúde é um plano relevante, mas a capacidade de investimento limitada não tem como oferecer melhores serviços, então temos que olhar a entrada de um grupo grande por outro lado: o do desenvolvimento de capital trabalhando para melhores serviços e preços", afirmaram os consultores.
 
Em Rio Preto, de acordo com a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o número de usuários de planos passou de 201.976 para 203.519, aumento de 0,76% entre março do ano passado e março deste ano.
 
Segundo a consultora em estratégia no mercado de saúde privado no Brasil, Luciane Infanti, o Brasil vem vivendo um movimento de quebra do monopólio de cooperativas médicas. "A entrada de uma grande empresa verticalizada tende a gerar um desequilíbrio, em que a empresa, com um preço muito baixo sai ganhando, mas a população fica sem oferta, uma vez que a concorrência depende de volume de atendimento e com a situação, precisa aumentar o custo, ficando pouco produtiva". (AP)
 
Oportunidade em nichos
Com o possível aumento dos custos de planos de saúde e a entrada de competidores com forte capacidade de investimento, a “briga” pelo mercado deve ser impactada.
 
Neste contexto, a Prevent Senior, operadora de saúde especializa em idosos, expande os planos de chegar a Rio Preto. O diretor-executivo da empresa, Pedro Benedito Batista Júnior, disse que a companhia tem intenção de chegar ao município dentro de seis meses a um ano, de olho em atender a demanda de usuários de saúde acima de 60 anos.
 
“Rio Preto prioriza qualidade de vida. É uma cidade que nos próximos dez anos vai dobrar a população idosa e isso traz uma tranquilidade muito grande para entrar num mercado em que ninguém consegue trabalhar adequadamente com esta parcela da população”, disse Júnior, que é rio-pretense.
 
Parceira do Hospital Care em Curitiba, Campinas e Ribeirão Preto, a empresa também atribuiu sua vinda ao avanço da marca na cidade e não se vê como concorrente de ninguém. “Nosso público gira em torno de 15% a 20% nas operadoras, correspondente a um gasto de 45% de toda a sinistralidade, o que traz um impacto financeiro muito grande”.
 
Segundo o executivo, em São Paulo a operadora já é responsável por 75% dos pacientes idosos que têm plano de saúde. Ele contou, ainda, que, nas próximas semanas, haverá reuniões na cidade com médicos que se interessarem em trabalhar com a operadora. A previsão é de chegar à cidade, inicialmente, como plano. A estrutura própria só passará a ser uma realidade após 50 mil vidas beneficiárias.
 
O número de idosos saltou de 58.186 em 2011 para 82.146 em 2021 em Rio Preto. Há uma década, o grupo representava 14,1% dos habitantes e atualmente representa 18,2%. No mesmo período, o número de moradores subiu de 412.219 para 450.361, aumento de 9,25%. Os dados são da Fundação Seade. (AP)
 
Entidades criticam ‘planos predatórios’
Em nota, o Sindicato dos Médicos de Rio Preto (Sindmed), sem citar nomes, se mostrou “preocupado” com a chegada de “convênios predatórios” na cidade. De acordo com a entidade, a transação “traveste-se, no início, de ampliação e profissionalização da saúde”, mas mais adiante, “se demonstrará uma realidade sombria.”
 
Na nota, o sindicato usa como exemplo Ribeirão Preto. Segundo o grupo, por lá, os médicos trabalham o dobro para ganhar metade do prometido, em média. “Quase tudo verticalizado e com situações que beiram a humilhação, deteriorando a qualidade dos serviços prestados assim como colocando em risco a saúde dos pacientes em sua plenitude”, disse o Sindmed, que garantiu ser contra a entrada “deste tipo de planos de saúdes corporativos”.
 
O Diário também teve acesso a um posicionamento da regional de Rio Preto da Associação Paulista de Medicina (APM) aos associados em que a entidade afirma ter “como um de seus pilares primordiais a defesa da classe médica”.
 
Na nota, a categoria diz que “jamais” medirá esforços para “proteger os médicos em relação aos baixos honorários, glosas arbitrárias de procedimentos solicitados, descredenciamentos unilaterais em massa de profissionais insatisfeitos e interferência nos diagnósticos/tratamentos de pacientes praticados por operadoras de saúde”.
 
Na quinta-feira, 15, o presidente da entidade, Leandro Colturato, e o vice, Rodrigo Ramalho, se reuniram com o Ministério Público para discutir a qualidade dos serviços das operadoras de saúde. Segundo a APM, a preocupação é que os associados mantenham seus direitos de acesso a serviços de qualidade. “Viemos alertar para possíveis desafios que este setor venha a enfrentar com a chegada de novas operadoras à região”, declarou Ramalho.
 
A reportagem também apurou que a Unimed enviou para os cooperados um comunicado repercutindo a possível aquisição de operadoras locais por empresas nacionais de grande porte, o que segundo a cooperativa “pode trazer consequências para o ambiente médico”. Na nota assinada pelo presidente do Conselho de Administração, José Luís Crivelin, a empresa afirma estar “vigilante para proteger a autonomia, o mercado de trabalho e remuneração médica justa” em Rio Preto.
 
Em nota, a Unimed informou que vai continuar trabalhando dentro dos princípios do cooperativismo, gerando trabalho aos cooperados, praticando a melhor remuneração à atividade médica e atendendo com excelência. O Diário procurou Bensaúde, Austa e Grupo São Francisco, mas eles optaram por não se manifestar. (AP)
 
Fonte: Diário da Região