Moradores relatam espera de até três dias por leitos de UTI em Piracicaba
Apesar de boletins oficiais apontarem leitos livres de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) em Piracicaba (SP), moradores relatam espera de até três dias pela abertura de vagas desta complexidade na rede pública da cidade em meio à pandemia de coronavírus.
Nesta segunda-feira (12), boletim do Departamento Regional de Saúde (DRS) relata 12 leitos de UTI pelo Sistema Único de Saúde (SUS) livres, o que representa uma ocupação de 86,2% em relação ao total de 87 vagas públicas na rede. Contabilizando vagas privadas, a taxa de ocupação é de 80,5%, segundo os dados oficiais.
No sábado (10), o boletim apontou que havia 16 vagas pelo SUS disponíveis, enquanto no domingo (11) notificou existência de nove.
Já o boletim da Prefeitura de Piracicaba, que não detalha os percentuais específicos de rede pública e privada, aponta que a taxa de ocupação de UTIs na cidade é de 81%.
No entanto, o sistema do DRS contabiliza 29 pessoas aguardando vagas de UTI e 13 esperando leitos de enfermaria nesta segunda-feira.
Rafael Chieregatto relata que seu pai, Luiz Francisco Chieregatto, que está com Covid-19, sofreu um AVC e foi levado ao Central de Ortopedia e Traumatologia (COT) de Piracicaba enquanto aguardava uma vaga de UTI
"Estou há 18 horas tentando uma vaga na UTI para meu pai, tanto particular como pública, em nível regional [...] Ele está com Covid e o que agravou foi o AVC que ele teve ontem. A Covid está estável, porém, o estado neurológico dele é muito grave. Está avançando e ele precisa urgentemente de uma UTI. E a gente não consegue leito. A cidade toda, praticamente, está mobilizada nisso e a gente não consegue um leito. Eu estou desesperado", contou. Francisco entrou na fila por leito no domingo (11), segundo o filho.
Outro caso é de Roberto Serafim Alves, de 74 anos, que estava na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Vila Sônia após ter sofrido um provável AVC, com quadro de saúde estável, e nesta segunda foi transferido para a Santa Casa da cidade. Ele aguardava um leito de UTI desde sexta-feira (9).
"Ontem, 10h30 eu estava no pronto-socorro, a médica chegou e falou: 'olha, a central de vagas negou [a vaga], orientou a gente a conversar com a família para fazer o tratamento paliativo'. Aí eu falei que não, que não queria tratamento paliativo, queria a vaga dele. Quando foi hoje, às 8h20, ligaram para meu primo falando que a vaga tinha saído e que era pra ir para o pronto-socorro. Chegando no pronto-socorro falaram que a vaga estava errada, que a vaga que saiu era de enfermaria e que o caso dele era de UTI. Desde sexta-feira não viram que a vaga estava errada? Nunca vi isso na minha vida", relatou a sobrinha de Roberto, Cassandra de Oliveira, de 43 anos.
Segundo ela, a alegação sobre o tempo de espera é falta de vaga. Na tarde desta segunda-feira, segundo Cassandra, ele passou por exame de tomografia que não identificou AVC e a vaga foi liberada no final da tarde.
O que diz a prefeitura
Em nota, a Secretaria de Saúde de Piracicaba informou que Roberto conseguiu a vaga às 15h. Em relação a Luiz Francisco, comunicou que está na lista de prioridades para internação e "está sendo atendido de forma intensiva (UTI), já que a UPA onde ele se encontra está equipada para este tipo de atendimento".
Quanto ao cálculo de ocupação de leitos, a pasta aponta que segue protocolo do Cento Covid-19 do Governo do Estado de São Paulo.
"O atendimento dos pacientes e distribuição de segue critério médico, interlocução com os hospitais de referência e a central de vagas, além da disponibilidade na rede; as unidades de referência estão preparadas para tratamento de enfermagem e intensivo dos pacientes Covid-19", acrescentou.
A administração ainda informou que no ano passado havia 86 leitos de UTI na cidade e, no momento, são 143. E diz que o número de vagas de enfermarias aumentou de 99 para 255 no período.
Cobrança de esclarecimento
A Promotoria de Justiça da cidade informou que pediu esclarecimentos a respeito da taxa de ocupação divulgada com leitos disponíveis, uma vez que também recebeu relatos do caso de um paciente na fila de espera.
"Já havíamos cobrado informações da prefeitura, pois a informação diária estava sempre abaixo de 100%, quando havia solicitações diárias pendentes por vagas em UTIs", informou o promotor Aluisio Maciel.
Em um dos dias nos quais foi apontada divergência de dados, a informação enviada ao Ministério Público foi de que houve erro de um dos hospitais da cidade.
Há 12 dias o boletim da prefeitura aponta que a taxa de ocupação de UTIs na cidade está abaixo de 100%. A última vez que foi apontado inexistência de leito dessa complexidade nas redes pública e privada foi em 30 de março.
Leitos de suporte ventilatório
Em março, o Ministério Público apontou que a prefeitura fazia a contabilização errada da taxa de ocupação de leitos. De acordo com a Promotoria, a administração vinha contabilizando como vagas de UTI as que são de suporte ventilatório e não possuem a estrutura completa para o tratamento intensivo.
"Os leitos das UPAs (unidades de pronto atendimento) não podem ser considerados UTIs propriamente ditos, pois não possuem a mesma capacidade de tratamento de casos mais complexos. Como dissemos ainda no final de janeiro, a população baterá na porta da UPA esperando encontrar uma UTI e encontrará apenas um 'leito de passagem', de transição até que haja uma vaga", afirmou Maciel.
Já a prefeitura sustenta que os leitos de suporte de ventilação pulmonar da cidade estão equipados com respirador, monitor e bomba de infusão, oferecendo "toda a estrutura necessária para assistir o paciente em estado crítico com diagnóstico de Covid-19" e que, assim, devem ser contabilizados como vagas de UTI.
O governo municipal ainda diz que as 20 vagas são reconhecidas pelo Censo Covid-19 do Estado de São Paulo e Governo Federal.
No entanto, no dia 18 de março, a prefeitura informou que 17 pacientes aguardavam UTI enquanto eram atendidos em leitos de suporte ventilatório. "A diferença entre essas unidades e as UTIs é que as UTIs dispõem de uma maior complexidade. As unidades de suporte ventilatório oferecem cuidados aos pacientes com síndrome respiratória aguda grave sem muita complexidade", informou, na ocasião.
Recomendação
Em 28 de janeiro deste ano, o Ministério Público tamnbém já havia recomendado a ampliação de leitos para atendimento de pacientes com Covid-19 ao poder público de Piracicaba.
À época, os promotores Aluisio Antonio Maciel Neto e Érika Angeli Spinetti já haviam alertado que os leitos de suporte ventilatório pulmonar existentes da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Piracicamirim, que hoje são ocupados por pacientes à espera de UTI, não poderiam ser considerados como vagas de tratamento intensivo.
"Sob o aspecto de ocupação hospitalar, os dados atuais também demonstram que se atravessa uma situação crítica, havendo a necessidade premente de se redobrar os esforços para que não haja colapso do sistema de saúde", traz trecho da recomendação, que também orienta a prefeitura a não flexibilizar as medidas preventivas.
Estrutura
No início de março o governo estadual confirmou a abertura de mais 10 leitos de UTI para pacientes com Covid-19 no Hospital Regional de Piracicaba. Esses leitos passaram a funcionar nesta quarta-feira (17), mas já apresentavam lotação no mesmo dia. No início da tarde desta quinta-feira (18) a taxa era de 88%, conforme informou o estado às 13h30.
Em 11 de março Piracicaba chegou a 100% de ocupação em leitos de UTI para pacientes com Covid-19 em todos os hospitais. Com isso, a prefeitura anunciou a implantação de um hospital de campanha em um prazo de 20 a 30 dias.
Além disso, a administração também contratou mais oito leitos de terapia intensiva no Hospital dos Fornecedores de Cana. Essas unidades passam a funcionar até 28 de março.
Outra medida para a ampliação de leitos foi a UPA da Vila Rezende passar a atender exclusivamente casos de Covid, com 18 leitos, sendo 16 enfermarias e 2 leitos de UTI. Em uma semana de funcionamento, a unidade registrou 31 internações.
Fonte: G1