Na linha de frente contra o movimento antivacina

Na linha de frente contra o movimento antivacina
Publicado: 29 de junho, 2026
A decisão do Ministério da Saúde de suspender preventiva e temporariamente a aplicação da vacina contra a dengue fabricada pelo Instituto Butantan, no início deste mês, rapidamente provocou polarização nas redes sociais, servindo de pretexto para que grupos antivacina retomassem o questionamento sobre a eficácia e a segurança de imunizantes. Para combater a produção e a circulação de fake news que fomentam esse tipo de falso debate, legisladores, cientistas e comunicadores defendem a disseminação de informações cientificamente embasadas, aliada à humanização da comunicação.
 
De acordo com uma pesquisa realizada pelo Centro de Estudos Sociedade, Universidade e Ciência (SoU_Ciência) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), divulgada em maio, quase 30% dos brasileiros estão fora do padrão de adesão plena à vacinação. Em anos anteriores, essa taxa não passava de 5%. Segundo um estudo realizado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) em 2025, 40% de todo o conteúdo antivacina que circula pela internet na América Latina vem do Brasil.
 
A preocupação sobre o tema chegou ao Congresso Nacional. Em abril, a Comissão de Assuntos Sociais do Senado iniciou o debate sobre o projeto de lei nº 2.745/2021, que criminaliza a disseminação de informação falsa ou sem comprovação científica sobre vacinas. No dia 28 de abril, foi realizada uma audiência pública sobre o assunto com especialistas e parlamentares.
 
Docente da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, a infectologista Raquel Stucchi aponta a escuta e o acolhimento de quem se opõe à vacinação como estratégia valiosa para aumentar a adesão da sociedade à imunização. “É preciso ouvir com atenção e responder a cada uma das dúvidas que as pessoas apresentem, mesmo que digam: ‘Será que a gente não vai mesmo virar jacaré?’”, explica.
 
Stucchi se tornou presença constante na imprensa durante a pandemia de Covid-19, orientando a população com uma linguagem acessível sobre como prevenir o contágio pelo vírus. Para ela, diante da dimensão continental do Brasil, da diversidade regional e da velocidade com que as notícias falsas circulam, a aliança entre academia, imprensa e divulgadores científicos é fundamental. Lançar mão de fatos e histórias reais para exemplificar também é uma estratégia válida. “Isso faz com que a pessoa acabe vendo a importância da vacinação e perceba que seu medo não tem fundamento”, acredita.
 
O problema não é falta de acesso à informação, mas saber que tipo de conteúdo chega a cada público – e com que frequência –, esclarece a infectologista. “Temos que fazer a notícia chegar para todas as idades, de todas as formas, numa linguagem que possa ser assimilada com mensagens rápidas, diretas e divertidas, mas que levem conhecimento científico. Inclusive sobre o que nós não sabemos ainda”, defende.
 
Na visão do jornalista Gabriel Alves, especialista em ciência e saúde e doutor em ciências, o combate ao movimento antivacinação é “um trabalho hercúleo, de formiguinha”, que exige “furar as bolhas” por onde circulam as informações falsas sobre o assunto. Ele acredita que relatar casos reais e procurar estabelecer um diálogo horizontal com o público ajuda a aproximar e a engajar a parcela da população resistente à imunização. “Vamos buscar casos de pessoas, falar de gente que morreu [por falta de vacina], falar dos absurdos. Vamos contar, explicar, sensibilizar”, sugere.
 
A vacina, avalia o jornalista, é refém do próprio sucesso, pois, justamente devido à eficácia das políticas de imunização da população, muitas doenças praticamente saíram de circulação. E isso, na opinião dele, abre margem para a propagação da pseudociência e de argumentos antivacina.
 
Entender o público
 
Durante a pandemia de Covid-19, a busca intensa por informações sobre o vírus, formas de prevenção e vacinas jogou luz sobre o papel da ciência, além de despertar a atenção da população sobre a atuação de instituições de pesquisa. Na ocasião, o Butantan ganhou os holofotes por ser responsável, em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac, pela produção do primeiro imunizante disponibilizado no país contra o vírus Sars-CoV-2: a vacina CoronaVac.
 
Com 125 anos de história na produção de vacinas e soros, a instituição se preocupa em fortalecer o sentimento de comunidade em seus canais de comunicação. “Nosso trabalho consiste em ouvir as pessoas e produzir conteúdos interessantes, nos quais elas se sintam vistas. Elas mandam perguntas e nós sempre respondemos”, explica Caroline Mazzonetto, coordenadora de comunicação do órgão, vinculado à Secretaria da Saúde do estado de São Paulo. Já Rafael Simões, coordenador da produção audiovisual do Butantan, cita a importância de adaptar os conteúdos que precisam ser comunicados ao formato e à linguagem de cada plataforma digital, sem comprometer a integridade da informação.
 
Para Simões, a fluidez das redes sociais demanda aprendizado constante, para que os bons resultados sejam mantidos. “É preciso estar o tempo inteiro aprendendo como a plataforma digital funciona e adaptando a nossa comunicação ao meio. O desafio é adequar o conteúdo ao melhor meio de informá-lo, mantendo profundidade”, diz.
 
Mazzonetto é enfática ao sublinhar a responsabilidade com o rigor do conteúdo divulgado nos canais de um órgão público cuja missão é salvar vidas. “O comportamento que nós esperamos é que as pessoas entendam e façam boas escolhas a partir do conhecimento”, pontua.
 
Para a coordenadora, o diferencial do jornalismo científico eficaz consiste em identificar as demandas de informação da população. “Cerca de 90% dos nossos acessos são via SEO [otimização de motores de busca, na sigla em inglês]. Vêm por meio de perguntas que as pessoas fazem no Google, por exemplo: ‘Dengue mata?’, ‘O que é HPV?’ etc.”, esclarece. “Não precisamos engajar o público, mas, sim, entender o que ele quer saber. Não é mais uma relação passiva, como quando as pessoas compravam jornal”.
 
Fonte: Jornal da Unicamp