No maior hospital de Ribeirão Preto, rede de apoio espiritual ajuda profissionais de saúde na luta contra a Covid
Para muitos profissionais de saúde, a fé é o que os ajuda a enfrentar a batalha pela vida dentro dos hospitais de Ribeirão Preto (SP) contra a Covid-19. Desde que a epidemia se alastrou pela cidade, 1.553 morreram com a doença.
No Hospital das Clínicas (HC), o maior e principal da região, as jornadas intermináveis de trabalho, a pressão e o esforço para salvar os doentes há mais de um ano têm impacto. Em março, os pedidos de médicos e enfermeiros para consultas na psicologia dobraram.
Para a médica psiquiatra Catalina Cabrera, o desgaste é o principal sentimento dos profissionais da saúde. “Esse estresse permanente, isso no dia a dia faz as pessoas abaixarem a guarda, então a palavra que eu mais uso é desgaste, estamos muito desgastados. Muitas vezes há até uma dificuldade de olhar para si mesmo, o tanto que é necessário estar disponível e olhar para o outro”, afirma.
Em pesquisa feita pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), mais de 50% dos profissionais admitiram excesso de trabalho. Quase 16% sofrem com perturbação do sono, 13% com irritabilidade e choro e 14% daqueles que atuam na linha de frente do combate à pandemia estão no limite da exaustão.
O médico intensivista Marcelo Puga se espanta com a situação que o hospital se encontra. “Está lotado, todos os leitos ocupados e pacientes muito graves”, diz.
Mas Puga acredita que mesmo com todas as dificuldades, é preciso agradecer. No carro, do caminho de casa ao trabalho, ele ouve mensagens religiosas que o ajudam no dia a dia.
“Apesar de estar cansado, de emocionalmente desgastado e tudo mais, eu penso que a gente tem que ter um minuto de sensatez e agradecer por estar vivo”, afirma o médico.
Oração de perto e à distância
Há 12 anos, pessoas ligadas a diferentes religiões criaram a Rede de Apoio, iniciativa para ajudar espiritualmente pacientes, familiares e profissionais da saúde no HC.
Com a pandemia, as visitas presenciais foram suspensas, mas o hospital desenvolveu um site para que todos continuassem tendo acesso a encontros religiosos e às palestras virtuais, onde se encontra suporte, ainda mais necessário.
“O próprio hospital começou a sentir falta dessa assistência, que é levar conforto, levar esperança, levar um pouco de paz, falar de Deus, de Jesus, mas sem identificar a religião. Foi proposto, então, a gente fazer o apoio virtual”, explica a voluntária da Rede de Apoio, Virgínia Nascimento Reis.
O padre Josirlei Aparecido da Silva visita hospitais há 16 anos. No ano passado, acostumado a ouvir a angústia compartilhada de terceiros, sentiu na pele a dor da perda de um ente querido para a doença. Aos 66 anos, a mãe dele, dona Divina, não resistiu à infecção.
“Não tive a experiência de ver a minha mãe, de estar com ela e poder me despedir, passar pelos ritos funerais. Como eu passei pela experiência, eu queria oferecer algo a mais, eu queria que as pessoas tivessem a oportunidade de rezar pelo seu ente querido, de estar com ele”, conta.
Indispensável
Josirlei conseguiu acesso ao hospital e caminha pelos corredores oferecendo acolhimento, bênçãos e palavras amigas. O abraço apertado está guardado para o futuro.
O médico intensivista Marcelo Puga diz que a presença do religioso no ambiente de trabalho é essencial. “Receber a oração, receber uma palavra de apoio e de carinho é fundamental e muito importante”, ressalta.
Foi por meio da Rede de Apoio virtual que a advogada Marcela Maalouli e a família tiveram a oportunidade de rezar com o padre por Nando, internado na UTI do hospital.
“A enfermeira delicadamente colocou a câmera bem no rostinho dele, que ele estava intubado, inconsciente, e o padre fez uma oração maravilhosa. Depois da oração, ele falou: ‘agora vocês podem se despedir do Nando’”, relembra Marcela.
Naquela mesma noite, Nando, de 56 anos, morreu.
Para o padre, a empatia é o remédio para curar muitas dores sentidas. “Ser empático é ver o mundo com os olhos do outro”, diz.
Fonte: G1