'Nunca quisemos ser milionários': a brasileira em lista dos 100 mais influentes de IA que oferece solução gratuita ao SUS

'Nunca quisemos ser milionários': a brasileira em lista dos 100 mais influentes de IA que oferece solução gratuita ao SUS
Publicado: 26 de setembro, 2025
No começo deste mês, a influente revista americana Time produziu sua primeira lista das cem pessoas mais influentes no mundo da inteligência artificial (IA).
 
Muitos dos nomes na lista são bastante conhecidos no mundo da tecnologia: Elon Musk (da Tesla e da xAI), Sam Altman (da OpenAI, criadora do ChatGPT), Mark Zuckerberg (da Meta), Jenson Huang (da NVidia) e Liang Wenfeng (do Deepseek), entre outros.
 
Na lista também aparece o brasileiro Cristiano Amon, CEO da Qualcomm, empresa americana fabricante de chips que vem se destacando também por pesquisa no campo da AI.
 
A lista é repleta de empresários e executivos que estão moldando esse campo que é hoje visto como o futuro da indústria da tecnologia.
 
E é vista também como uma tremenda oportunidade de negócios para aqueles visionários que conseguirem criar empresas pioneiras e disruptivas.
 
A inteligência artificial catapultou a fabricante de chips NVidia ao posto de empresa mais valiosa do mundo hoje, com valor de mercado superior a US$ 4 trilhões. Outro pioneiro no setor, o fundador da OpenAI, Sam Altman, tornou-se bilionário.
 
Outro nome que aparece na lista é da farmacêutica brasileira Ana Helena Ulbrich, moradora de Capão da Canoa, município do litoral norte do Rio Grande do Sul, que foi reconhecida pela Time pela ferramenta que ela e seu irmão, o cientista de dados Henrique Dias, criaram para resolver um problema do sistema de saúde brasileiro: reduzir o número de erros em prescrições médicas.
 
Mas ao contrário de alguns outros nomes da lista e no setor de AI, Ulbrich e Dias não se tornaram bilionários — ou sequer milionários.
 
Ao invés de uma startup, eles criaram um instituto sem fins lucrativos, a NoHarm, que cobra uma pequena taxa de hospitais privados para poder oferecer sua ferramenta gratuitamente aos hospitais públicos do Brasil.
 
Sua pequena operação de 20 pessoas funciona ainda hoje dentro da Tecnopuc Startup — a incubadora de negócios da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), em Porto Alegre.
 
"O caminho comum é criar uma empresa para ficar milionário. Nós nunca quisemos ser milionários. Não tínhamos essa necessidade ou essa vontade", disse Ulbrich em entrevista à BBC News Brasil.
 
Trabalho exaustivo
Em 2017, Ana Helena Ulbrich era farmacêutica do Grupo Hospitalar Conceição, a maior rede pública de hospitais da região Sul do país, com atendimento 100% pelo SUS.
 
Sua função era fazer a avaliação da prescrição de remédios receitados aos pacientes.
 
Quando um médico precisa administrar remédios a pacientes internados no hospital, ele envia a prescrição ao farmacêutico, que é um profissional especializado em analisar se os medicamentos são eficazes e seguros.
 
Há inúmeros problemas que podem acontecer na administração de um remédio: por exemplo, a dose e a frequência podem estar erradas ou pode haver interações indesejadas do remédio indicado com outros medicamentos que o paciente já está tomando.
 
Alguns pacientes são idosos, possuem comorbidades ou têm problemas específicos, como renais ou hepáticos — fatores que podem ser complicados com erros de prescrições.
 
Em um mundo ideal, um farmacêutico precisaria olhar todo o prontuário do paciente — incluindo as anotações dos médicos e enfermeiros e os exames do paciente.
 
Mas a prática do departamento de farmácia de um grande hospital brasileiro é muito diferente.
 
"O trabalho de olhar prescrições era exaustivo. Eu tinha um minuto ou dois minutos para olhar a prescrição e já liberar o medicamento", conta Ulbrich.
 
Na equipe em que ela trabalhava, com quatro pessoas, eles chegavam a avaliar 800 prescrições por dia.
 
"Eu sempre me senti insegura se eu estava ou não olhando a prescrição de forma completa e com qualidade", conta.
 
"A maior parte dos farmacêuticos não têm condições de olhar todas as informações no formato em que o trabalho está hoje."
 
Nos almoços familiares de domingo, ela discutiu o problema com seu irmão, Henrique Dias, que estava fazendo doutorado em informática na PUC-RS.
 
As conversas resultaram em um projeto de pesquisa para detecção de eventos adversos em prontuários de hospitais.
 
E desse projeto surgiu o algoritmo que serviu como embrião do trabalho que eles desenvolvem até hoje. O algoritmo detecta prescrições de medicamentos fora do padrão e alerta farmacêuticos para erros.
 
O trabalho foi publicado em uma revista científica, mas Ulbrich e Dias tinham ambições maiores: eles queriam desenvolver uma solução que facilitasse a vida de farmacêuticos nos hospitais.
 
Em 2019, eles montaram um instituto sem fins-lucrativos chamado NoHarm — nome em inglês que significa "sem danos", contando com um dinheiro que ganharam do prêmio Lara, da gigante de tecnologia do Google.
 
O trabalho começou no Hospital Santa Casa de Porto Alegre e envolveu não só o desenvolvimento do algoritmo, como também um sistema integrado ao banco de dados.
 
A primeira prescrição médica da NoHarm foi analisada em março de 2020.
 
O programa da NoHarm oferece soluções para diversos problemas comuns aos farmacêuticos. O sistema tem acesso a todas as informações do prontuário do paciente, como exames e comorbidades.
 
O programa consegue identificar problemas de dose e frequência de medicamentos, analisa as interações com outros remédios que o paciente esteja tomando e consegue até mesmo analisar as anotações feitas por profissionais como médicos, enfermeiros, nutricionistas e fisioterapeutas.
 
Fonte: BBC brasil