Pandemia valoriza carreira de enfermagem, mas sobrecarrega profissionais

Pandemia valoriza carreira de enfermagem, mas sobrecarrega profissionais
Publicado: 22 de setembro, 2020

 Nos últimos meses, os profissionais de enfermagem tiveram de enfrentar hospitais superlotados e uma doença desconhecida.

 
O protagonismo na luta contra o novo coronavírus trouxe à tona antigos problemas da área, como a sobrecarga dos profissionais e o desgaste das equipes, e jogou luz na necessidade de investimento e especialização no setor, abrindo portas para discussões que vão desde o aumento do piso salarial até a reformulação do currículo.
 
Para o primeiro secretário da Cofen (Conselho Federal de Enfermagem), Antonio Marcos, a pandemia evidenciou problemas que antecedem a crise sanitária, entre eles o desinteresse de hospitais em contratar mais profissionais, a falta de concursos públicos e as más condições de trabalho nas periferias e no interior do Brasil.
 
"O que já era difícil ficou mais difícil ainda", diz Marcos. "Houve um aumento de contratações para suprir a lacuna que se apresentou. Mas essa lacuna já existia em situações normais."
 
Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), a expectativa é de que até 2030 haja um déficit mundial de 9 milhões de profissionais de enfermagem. Na tentativa de trazer conscientização sobre o assunto, a organização propôs, em 2019, a campanha Nursing Now, apadrinhada pela duquesa de Cambridge Kate Middleton.
 
Para representante da Nursing Now na América Latina e diretora da unidade hospitalar do Morumbi do Hospital Albert Einstein, Claudia Laselva, a enfermagem não é uma profissão como as outras, porque "exige muita doação pessoal", diz.
 
Natália Cavallari, 35, saiu do ensino médio com o objetivo de se tornar fisioterapeuta. Ao não passar no vestibular, apostou na segunda opção e fez um curso técnico de enfermagem no hospital Albert Einstein. Depois, começou a trabalhar na instituição e cursou lá mesmo graduação em enfermagem.
 
Ela, que sempre trabalhou na área de terapia intensiva, emociona-se ao compartilhar a experiência na linha de frente do combate à Covid-19. "O hospital parecia uma zona de guerra. Eu mal reconhecia os colegas de tantos equipamentos de proteção que usavam", conta.
 
A falta de interação com os colegas, que estavam sobrecarregados com o trabalho e sem poder dividir os momentos de pausa, faz falta para Natália.
 
O esforço para evitar o contágio se somou às outras dificuldades enfrentadas pelos enfermeiros, que acabaram tendo impacto na saúde mental de muitos deles. Profissionais relatam desenvolvimento de síndrome do pânico, depressão e burnout.
 
Com a pandemia, as equipes de enfermagem precisaram ter ainda mais sensibilidade no cuidado do paciente. "A crise exigiu uma atenção que vai além do ponto de vista técnico. Foi necessário o cuidado humano, o suporte emocional", afirma Laselva.
 
A pressão foi ainda maior porque alguns enfermeiros se isolaram de suas famílias e deixaram os filhos com avós, por medo de contágio.
 
Natália, que tem filhos pequenos, afrouxou as medidas de segurança com o passar do tempo. "No início da pandemia eu ficava de máscara em casa e não entrava com a roupa da rua", conta.
 
Para Andréa Mohallem, coordenadora do curso de enfermagem do Einstein, os desafios da pandemia empolgaram os alunos. "Houve uma reafirmação da escolha pela profissão", diz.
 
Mesmo quando não conseguimos recuperar o paciente, ele pode ter tido uma boa experiência. Às vezes o resultado não é a cura, mas uma experiência humana, respeitosa.
 
Antônio Marcos, presidente do Cofen, acredita que a valorização da carreira pode perdurar se os enfermeiros forem capazes de ter uma articulação maior entre si, inclusive na política.
 
Laselva, representante do Nursing Now, vê na pandemia uma chance de estreitar os laços entre enfermeiros e pacientes. "A gente até diz que o médico é o que traz o paciente pro hospital, mas é a enfermagem que faz ele voltar para casa", diz.
 
Hoje, a maior área de atuação para enfermeiros é na assistência ao paciente, mas os ramos de pesquisa, ensino e gestão —focado em formulação e planejamento de ações de saúde— estão crescendo, inclusive por meio da oferta de pós-graduações.
 
Segundo o presidente do Cofen, a graduação de enfermagem é pensada para formar um profissional capaz de atuar de forma generalista. As especializações, disponíveis em mais de 50 áreas, vêm, então, como um diferencial no mercado de trabalho.
 
A vasta oferta não muda, porém, o ponto principal da profissão: lidar com pessoas. Para Laselva, gostar de gente, gostar de cuidar e ter empatia são pontos essenciais do trabalho. "Mas empatia é uma habilidade que se aprende", completa.?
 
Fonte: Folha de SP