Polo de Inovação levará novas tecnologias de Saúde ao SUS
A criação de um Polo de Inovação em Tecnologia da Saúde (PITS), articulado entre universidades, prefeituras da região, como Paulínia e Pedreira, empresas e a sociedade civil, pretende mudar a forma como as pesquisas científicas chegam à população por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). A proposta, divulgada com exclusividade pelo Correio Popular, tem como vitrine inicial o OncoTherad, um sistema de imunoterapia sintética desenvolvido por pesquisadores da Unicamp e já aplicada com sucesso em pacientes com câncer de bexiga no Hospital Municipal de Paulínia.
Segundo, Wagner Fávaro, coordenador da pesquisa do OncoTherad e um dos idealizadores do Polo, o PITS surge como resposta a uma deficiência histórica do Brasil, que é a dificuldade em transformar conhecimento acadêmico em tecnologia aplicada. Fávaro explicou que uma das grandes metas do PITS é aumentar a capacidade nacional de produzir os próprios insumos para utilização na produção de fármacos. “Hoje o país produz apenas 5% desses insumos, os outros 95% precisam ser importados, o que deixa o Brasil muito dependente”.
Essa realidade encarece a utilização desses fármacos na rede de saúde, além de afetar sua disponibilidade, seja em unidades públicas ou privadas, em razão de serem importados e requisitados por outros países. Com o Polo, o objetivo é transformar o Brasil em um país capaz de produzir suas próprias tecnologias e insumos e aplicá-los na rede do SUS. “Muitas vezes o pesquisador desenvolve a tecnologia, mas ela não chega às pessoas. Falta um ecossistema que conecte ciência, gestão pública e produção para que possamos avançar”, explicou Alexandre Brandt, secretário adjunto de Saúde de Paulínia, que acompanha o projeto desde sua fase inicial.
A perspectiva do PITS é formalizar uma aliança estratégica que inicialmente envolveria a Unicamp, por meio da Agência de Inovação (Inova), as prefeituras de Paulínia, Pedreira e Itajá (RN), empresas de base tecnológica e associações de pacientes. O projeto está em tramitação na reitoria da universidade e a expectativa é que seja aprovado ainda no primeiro trimestre de 2026.
Com o OncoTherad como caso concreto de sucesso, os idealizadores acreditam que o Polo poderá atrair novos municípios, empresas e recursos públicos, consolidando um modelo no qual a ciência produzida no Brasil se converta em tratamento, acesso e qualidade de vida para a população.
Dessa forma, é possível transformar conhecimento científico em soluções aplicáveis ao SUS, fortalecendo a autonomia tecnológica do país, reduzindo a dependência de insumos importados e promovendo desenvolvimento econômico regional, uma vez que a proposta envolve pesquisa, ensaios clínicos, formação de profissionais e estímulo à inovação em saúde.
“Paulínia, Pedreira e Itajá passam a ocupar um papel estratégico na construção de um novo modelo de inovação em saúde no Brasil”, afirmou Fávaro. Para ele, a articulação entre universidades, hospitais públicos e gestores municipais demonstra que é possível produzir ciência de excelência com impacto direto na população, a partir de iniciativas regionais bem estruturadas.
Ao unir atendimento público, pesquisa científica e inovação tecnológica, a região se consolida como um pólo emergente na busca por soluções mais eficazes, acessíveis e sustentáveis no combate ao câncer e a outras doenças complexas.
Além da oncologia, o projeto pretende acelerar outras tecnologias em saúde, como um tratamento odontológico com nanopartículas de prata para controle de cáries em crianças, especialmente aquelas com transtorno do espectro autista, e o desenvolvimento de exames diagnósticos rápidos, capazes de reduzir o tempo de atendimento em pronto-socorros de oito horas para cerca de uma hora. “Essa tecnologia do atendimento rápido já está em processo de desenvolvimento e possivelmente poderemos implementar esse sistema já em 2026”, afirmou Fávaro.
O pesquisador explicou que, através da coleta de uma gota de sangue do dedo e de saliva, o material biológico do paciente passa por um sensor que rapidamente consegue realizar o diagnóstico de cada paciente. Dessa forma não há a necessidade de ter um médico especialista para a realização dos exames rápidos. “A própria equipe de enfermeiros do pronto-socorro será capaz de realizar esse tipo de exame”. A partir dele, os dados são processados com a utilização de uma inteligência artificial que entrega o resultado do diagnóstico para o médico plantonista.
Através da criação do PITS, o objetivo é de que as cidades recebam essas tecnologias para o desenvolvimento e aperfeiçoamento das mesmas, ao passo que elas se tornem cada vez mais acessíveis em toda a rede do SUS. Outro ponto destacado, é que a atuação das cidades parceiras também será importante para o treinamento do profissional da saúde no manuseio e aplicação das novas técnicas desenvolvidas. “Queremos que os municípios participantes recebam essas tecnologias em primeira mão e ajudem a distribuí-las pelo SUS. É uma política pública baseada em evidências e necessidades reais da população”, resume Fávaro.
Para Alexandre Brandt, o PITS pode transformar a região de Campinas em um hub nacional de inovação em saúde, nos moldes do que São Carlos representa para a tecnologia industrial. “Estamos falando de um setor que representa cerca de 18% do PIB brasileiro. Investir em inovação em saúde é também investir em desenvolvimento econômico para o país”, afirmou.
PESQUISA
O OncoTherad é resultado de mais de 15 anos de pesquisa em nanomedicina e imunoterapia, liderada pelo médico e pesquisador Wagner Fávaro, em parceria com o Instituto de Química da Unicamp. A molécula sintética foi desenvolvida como alternativa à BCG, tratamento padrão para o câncer de bexiga, frequentemente indisponível no Brasil devido a dificuldades de importação.
A aplicação da BCG enfrenta desafios relevantes. Além de provocar desconforto intenso e eventos adversos recorrentes, o protocolo terapêutico é longo e exige alta adesão do paciente. Como consequência, uma parcela significativa, cerca de 50% dos pacientes, interrompe o tratamento antes do término, comprometendo os resultados clínicos.
“Trata-se de uma inovação radical. O Brasil precisa desenvolver novas moléculas para baratear os custos com medicamentos oncológicos, que chegam a custar até R$1 milhão”, afirmou Fávaro. Para ele, o caso do OncoTherad mostra que a ciência brasileira tem capacidade de liderar esse processo de busca por novas substâncias que ampliam o acesso aos tratamentos de saúde. A tecnologia do OncoTherad já possui patentes concedidas no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa, todas com titularidade de uma universidade pública, para os pesquisadores esse é um feito considerado inédito no país.
O urologista João Cardoso, integrante da equipe de pesquisa e responsável pela aplicação clínica do OncoTherad no Hospital de Paulínia, destacou que o projeto avançou justamente por estar inserido na rede pública. “Conseguimos tratar centenas de pacientes dentro do SUS, algo extremamente raro em pesquisas dessa complexidade. Além disso, a terapia apresenta menos efeitos colaterais do que a BCG”, explicou.
Os resultados clínicos são expressivos. Em Paulínia, onde o tratamento vem sendo aplicado no SUS desde 2017, 72,7% dos pacientes não apresentaram recidiva do tumor. Nos casos em que houve retorno da doença, as lesões foram menores, permitindo que os pacientes preservassem a bexiga e evitassem cirurgias mais agressivas. Outro diferencial é o custo. Enquanto terapias experimentais nos Estados Unidos podem chegar a R$1 milhão por paciente ao ano, o OncoTherad tem potencial para custar 30% a 40% menos que os tratamentos tradicionais, tornando-se viável para o sistema público de saúde.
Fonte: Correio Popular