Técnico em enfermagem vira 'Homem-Aranha' para visitar crianças e se torna 'melhor amigo' de menino cego em SP
Há cinco anos, um técnico em enfermagem de São Vicente, no litoral de São Paulo, visita hospitais e comunidades carentes vestido de Homem-Aranha para levar alegria às crianças. Porém, ao iniciar esse trabalho voluntário, onde é reconhecido justamente pela fantasia, ele não esperava ganhar um fã cego, que mesmo sem enxergar sua aparência, o considera um super-herói de verdade, e um amigo.
“Eu sempre fui fã do Homem-Aranha, sempre me identifiquei com esse personagem, o 'amigo da vizinhança'. Depois de participar de um evento, fiquei pensando se poderia fazer algo com a roupa, e surgiu a ideia de fazer visitas a crianças em comunidades e hospitais”, explicou ao g1 Richard Pereira da Silva, de 37 anos.
Silva esclarece que trabalhava em um hospital, via como as crianças internadas ficavam inquietas pela situação, e decidiu fazer algo para ajudar. Ele possuía a fantasia do personagem e passou a combinar com as administrações das unidades de saúde visitas para crianças em tratamento, conversando e brincando com elas. “Senti aquela adrenalina, a emoção de ver as crianças. É muita felicidade você chegar no leito e as crianças verem o super-herói, parece que o leito acaba virando um parque de diversão”, conta.
O morador de São Vicente conta com a ajuda do Projeto Luann Vive, que doa brinquedos a crianças carentes e realiza palestras. O responsável pelo projeto ajuda Silva a entrar em contato com os hospitais, marcar as visitas e conhecer novos lugares. Além de hospitais, ele visitas comunidades carentes e aldeias indígenas, em diferentes cidades da Baixada Santista, no litoral de São Paulo.
Fã especial
Durante a pandemia, Silva precisou interromper as visitas, mas se reinventou para continuar levando alegria às crianças. Por meio de chamadas de vídeo, fantasiado, ele conversava com os pequenos. E nesse período, ele encontrou um fã especial.
O único paciente que recebeu a visita presencial do herói durante a quarentena foi uma criança de 7 anos, que, segundo a Prefeitura de São Vicente, possui microcefalia e mielomeningocele. Por isso, ele é cadeirante e deficiente visual. Contudo, mesmo sem enxergar a roupa do Homem-Aranha, o que atrai a maioria das crianças, ele desenvolveu carinho e admiração pelo herói por trás da fantasia.
Richard explica que conheceu o menino em 2019, quando ele ainda tinha parte da visão. A criança se apaixonou pela história do super-herói, e afirmava que ele era seu melhor amigo. Assim, mesmo após a perda total da visão do menino, Silva continua visitando-o, usando a voz como maneira de a criança o reconhecer como o Homem-Aranha.
"É um guerreiro desde pequeno. Hoje ele não enxerga, mas ele já toca e sabe. Se eu falar 'oi, adivinha quem está aqui', ele já fala que é o Homem-Aranha. Ele não liga para presentes, mas sim para a presença. Pergunta se eu vim pela janela, diz que é meu melhor amigo. É mágico, uma lição de vida", relata.
O voluntário segue indo às visitas com a fantasia, permitindo que a criança o toque e o reconheça. "Agora ele é meu amigo, porque o Homem-Aranha dele é destinado à minha voz. Sem dúvida, é uma criança especial", diz.
Silva acredita que, apesar de fazer o trabalho voluntário, é ele quem ganha com a iniciativa. “Tem coisas que o dinheiro não paga, e isso é uma delas. É muito gratificante o retorno. Saber que eles estão ali internados, lutando a cada segundo, e você poder fazer um pouco por eles, fazer se sentirem melhores, fortes, isso não tem preço”, conclui.
Fonte: G1