Unicamp corre risco de deixar gestão do Hospital de Sumaré

Unicamp corre risco de deixar gestão do Hospital de Sumaré
Publicado: 18 de fevereiro, 2025
O Governo do Estado de São Paulo pretende abrir concorrência para entregar a gestão do Hospital Estadual de Sumaré (HES) a uma Organização Social de Saúde (OSS). Desde o ano 2000, a unidade hospitalar é administrada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com apoio da Fundação da Unicamp (Funcamp). Renovado pela última vez em 2020, o atual vínculo entre a universidade campineira e a pasta de saúde estadual vence em julho deste ano. Para o diretor executivo da área da Saúde da Unicamp, Oswaldo Grassiotto, que está à frente das negociações com o Governo do Estado sobre o convênio da gestão do HES, o final do vínculo entre a Unicamp e a Secretaria de Saúde seria "algo catastrófico". 
 
O temor de um possível comprometimento na assistência para a população com o encerramento do acordo preocupa os envolvidos com a rotina do HES, pois se trata do único hospital público de Sumaré. Em 2022, o HES foi considerado o melhor hospital público do Brasil em um ranking do Instituto Brasileiro das Organizações Sociais de Saúde (Ibross) em parceria com a Organização PanAmericana de Saúde. Ele atende a uma região de aproximadamente 1,2 milhões de pessoas.
 
O atual convênio, no valor de mais de R$ 652 milhões, prevê a manutenção de todas as atividades assistenciais já realizadas na unidade de saúde. Ela tem 100% do atendimento voltado para o Sistema Único de Saúde (SUS), com o foco nos moradores de Sumaré, Americana, Hortolândia, Monte Mor, Nova Odessa e Santa Bárbara d'Oeste. O hospital oferece internações em seis clínicas (clínica médica, cirurgia geral, ortopedia, neurocirurgia, pediatria e gineco-obstetrícia) e três unidades de terapia intensiva (neonatologia, UTI pediátrica e UTI de adultos), além de cirurgias, partos, consultas ambulatoriais, atendimentos de urgências e exames de apoio e diagnose.
 
RISCOS
 
Segundo Grassiotto, a intenção é apresentar três possibilidades ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). Uma delas é a permanência da relação entre as partes por meio de um novo convênio, considerando que um acordo entre dois órgãos estaduais (Unicamp e Secretaria Estadual de Saúde) não fere a lei. A segunda proposta é enquadrar o HES como um hospital escola e vinculá-lo à Universidade de Campinas, assim como acontece em São Paulo com o Hospital das Clínicas, por exemplo. É uma estrutura da Secretaria Estadual de Saúde, mas administrada pela Universidade Estadual de São Paulo (USP). Por fim, em último caso, renovar o atual vínculo por mais 12 meses para que a Funcamp (Fundação de Desenvolvimento da Unicamp) possa participar da futura concorrência pública em condições de igualdade com outras empresas.
 
"Fizemos toda a preparação necessária para enquadrar a Funcamp como uma Organização Social de Saúde. Nossa expectativa é que esse processo termine entre o final de março e o começo de abril, com uma publicação no Diário Oficial do Estado. Além disso, a legislação federal exige que atuemos por um período de seis meses nesse formato, para podermos pedir uma isenção fiscal junto ao Governo Federal no âmbito trabalhista. Isso poderá resultar em uma redução de 20% do custo com a folha de pagamento. E aí participarmos em condições de igualdade com outras Organizações Sociais na concorrência pública do Governo Estadual", explicou. Grassiotto destacou que adequar a Funcamp para atuar como uma OSS é uma medida extrema.
 
Quem também comentou sobre a situação foi a superintendente do Hospital de Clínicas da Unicamp, Elaine Cristina de Ataide. Em uma publicação feita anteontem em uma rede social, a médica, que foi residente no Hospital Estadual de Sumaré na área de cirurgia geral, defendeu a continuidade do vínculo entre a universidade e a Secretaria de Saúde do Estado. "Temos medo que o final desse vínculo comprometa a assistência aos pacientes. Uma vez que a íntima relação do hospital com a área de saúde faz com que existam diretrizes que melhoram, inclusive, o atendimento dessas pessoas. Além de ser o único hospital público da cidade de Sumaré". 
 
IMPACTOS NA FORMAÇÃO
 
O HES também é sede para estágio dos alunos dos cursos de graduação e de residência da área de saúde da Unicamp (Medicina, Enfermagem, Farmácia, entre outros). Anualmente, 360 estudantes de medicina, do 3º, 5º e 6º ano, e 200 médicos residentes e residentes multiprofissionais atuam em média no hospital. O local também se destaca como uma unidade para o desenvolvimento de pesquisa e projetos de pósgraduação (mestrado e doutorado) da universidade estadual campineira. Há um receio de que o final da parceria entre a Unicamp e a Secretaria Estadual de Saúde também possa comprometer a formação desses profissionais.
 
O diretor da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp (FCM), Cláudio Saddy Rodrigues Coy, comentou sobre os possíveis impactos da saída da universidade da gestão do Hospital Estadual de Sumaré no aspecto de formação profissional. Mais de 2,5 mil alunos de graduação em medicina da universidade realizaram estágio prático no hospital, desde o início da parceria. A cada ano, mais de 200 médicos residentes da Unicamp passam pelo HES, complementando a formação iniciada em outras unidades de saúde da instituição de ensino campineira. Desde 2004, mais de 600 trabalhos, incluindo teses de mestrado, doutorado e pós-doutorado, foram desenvolvidos dentro do Hospital Estadual de Sumaré.
 
"Nós temos o Hospital de Clínicas da Unicamp. E já me perguntaram da necessidade de usarmos o Hospital Estadual de Sumaré para a realização de atividades ligadas ao ensino. Trata-se de hospitais com características diferentes. O HES possui um nível de complexidade de atendimento menor do que o HC. E é importante que o aluno e o residente possam vivenciar casos que são rotineiros em hospitais com menos complexidade. É uma experiência fundamental na formação desses profissionais", pontuou.
 
Por meio de nota, o Departamento Regional de Saúde (DRS) de Campinas informou que o contrato para administração do HES está vigente até julho de 2025, e que o chamamento público para a definição de seu futuro gestor será publicado no Diário Oficial do Estado oportunamente.
 
 
Fonte: Correio Popular