Durigan critica juros altos e diz que quadro fiscal não explica sozinho os juros do Brasil
O ministro da Fazenda Dario Durigan afirmou que o Brasil não pode continuar com a maior taxa de juros do mundo e defendeu um caminho de redução que preserve a atuação do Estado. A declaração foi dada em entrevista à revista Piauí, concedida em 26 de agosto e divulgada nesta terça-feira (15), quando o Comitê de Política Monetária (Copom) iniciou a reunião que definirá a Selic.
Durigan reconheceu que a situação das contas públicas influencia o nível dos juros, mas rejeitou a avaliação de que o problema possa ser explicado exclusivamente pelos gastos do governo. “O debate não pode se limitar à ideia de que os juros estão altos apenas porque o governo gasta muito. Reconheço que o quadro fiscal influencia a taxa, mas ele não explica tudo. Se ficarmos presos a esse argumento, só teremos juros baixos quando o Estado definhar, o que não é viável”, afirmou.
“Precisamos encontrar um equilíbrio que preserve o papel do Estado e permita a redução dos juros. O Brasil não pode continuar com a maior taxa de juros do mundo”, acrescentou o ministro.
A discussão ocorre às vésperas da decisão do Copom. Levantamento Projeções Broadcast publicado na sexta-feira (11) mostrou que 75 das 78 instituições financeiras consultadas esperam redução de 0,25 ponto percentual na Selic, de 14% para 13,75% ao ano. Outras três projetam manutenção da taxa em 14%.
Durigan usou o México como exemplo para sustentar que o quadro fiscal não é suficiente para explicar a diferença entre os juros praticados por diferentes países. Segundo ele, a economia mexicana possui grau de investimento e não apresenta uma situação orçamentária muito melhor do que a brasileira, mas opera com juros de 6,5%.
O ministro também atribuiu o nível das taxas brasileiras a características do sistema financeiro. Entre os fatores mencionados estão a concentração da negociação de títulos públicos em poucos bancos e um componente histórico e cultural relacionado à familiaridade dos brasileiros com aplicações de alta remuneração.
Na avaliação de Durigan, investidores no Brasil se acostumaram a retornos elevados em produtos como CDBs, renda fixa, poupança e títulos do Tesouro. Ele afirmou que aplicações semelhantes costumam oferecer remuneração muito menor em outros países.
Outro ponto levantado foi a indexação de diversos produtos financeiros a taxas elevadas. Durigan afirmou ainda que o mercado de capitais e a Bolsa permanecem concentrados, com poucas alternativas, enquanto o acesso ao crédito continua pouco democratizado.
O titular da Fazenda incluiu entre os fatores que pressionam os juros a falta de credibilidade fiscal de longo prazo. Segundo ele, permanecem dúvidas sobre a capacidade brasileira de equilibrar o Orçamento, evitar mudanças econômicas consideradas arriscadas e estabilizar a dívida nos próximos anos.
Durigan também abordou na entrevista a reação de setores do mercado financeiro à possibilidade de um novo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). “Na prática, os resultados entregues pelo presidente são muito diferentes dos temores anunciados”, afirmou.
“Em seus oito anos de governo – Lula 1 e Lula 2 -, ele gerou superávit, acumulou reservas internacionais, manteve a inflação sob controle e promoveu um crescimento expressivo, com participação de todos. O mercado financeiro lucrou muito, e o agronegócio também cresceu”, disse Durigan.
Ao tratar do ajuste das contas públicas, o ministro afirmou que a equipe econômica avançou em medidas negociadas com o Congresso, embora em ritmo mais lento do que gostaria.
“Sob a perspectiva da Fazenda, fizemos e aprovamos muita coisa no Congresso. Digo ao próprio mercado que eu gostaria de ter realizado um ajuste mais rápido, mas somos democratas e negociamos cada medida com o Congresso, com enorme dificuldade. Ainda assim, fizemos um ajuste equivalente a 2% do PIB no orçamento. Vamos repetir esse esforço. Será fácil? Claro que não. Mas vamos fazer novamente”, declarou.
Questionado sobre como Lula reage às críticas vindas do mercado e do empresariado, Durigan disse que o presidente costuma defender que o governo não entre em uma dinâmica de ressentimento. O ministro acrescentou que, ao mesmo tempo, não se pode ignorar a capacidade do mercado de pressionar a moeda e os preços dos ativos brasileiros, incluindo títulos públicos e ações de companhias como Petrobras, Banco do Brasil e Vale.
Fonte: Brasil 247