Carta de São Paulo alerta gestores e sociedade sobre a saúde de quem cuida da saúde
Por Edison Laércio de Oliveira*
Mais de 800 mil trabalhadores da saúde das redes privada e filantrópica do Estado de São Paulo têm agora um documento que resume suas necessidades mais urgentes e deve nortear a ação sindical. Reunidos entre os dias 24 e 26 de agosto, na Colônia de Férias Firmo de Souza Godinho, em Praia Grande, 200 delegados representando as entidades sindicais filiadas à Federação Paulista da Saúde aprovaram, no encerramento do 19º Encontro Estadual da Saúde, a 19ª Carta de São Paulo — um conjunto de seis resoluções que cobra os gestores da saúde e chama a atenção da população para a realidade de quem trabalha diariamente no cuidado com a vida alheia.
O documento nasceu de debates acalorados. Foi construído ao longo de três dias de palestras e plenárias organizadas em torno de três eixos centrais: a política como ferramenta de mudança, a saúde mental no trabalho e o impacto do fim da jornada 6x1 para a categoria. O resultado é uma carta que vai nortear o trabalho dos Sindicatos filiados por mais um ano.
Na área de segurança no trabalho, há um retrato que assusta
Um dos pontos que sustentam a Carta é um dado do próprio Ministério do Trabalho e Emprego: o Brasil registrou, em 2025, o maior número de acidentes de trabalho da série histórica — 806.011 ocorrências, com 3.644 mortes. Desse total, cerca de 11% aconteceram na área da saúde, setor que lidera isoladamente o ranking nacional de notificações.
É diante desse cenário que os delegados decidiram que é necessário ter uma atuação mais firme nos estabelecimentos de saúde, exigindo o cumprimento rigoroso das Normas Regulamentadoras — em especial a NR-32, voltada à segurança e à saúde no ambiente de trabalho, e a NR-1, que trata do gerenciamento de riscos, incluindo os riscos psicossociais.
Buscamos o reconhecimento de que quem cuida também adoece, também se acidenta, também morre no exercício da profissão — e que isso vem sendo tratado como número, não como urgência. Não é preciso recordar a pandemia pela Covid-19 para mostrar que é urgente a humanização no setor da saúde.
A jornada que consome quem cuida
A jornada 6 x 1 não atinge os trabalhadores da saúde que já trabalham 36 horas semanais, mas em nome de uma vida digna para a classe trabalhadora brasileira, os dirigentes presentes no 19º Encontro tomam posição pelo fim da jornada 6 x 1 e defendem a aprovação de uma jornada ainda mais reduzida para os trabalhadores da saúde. É o reconhecimento de que cuidar de vidas, em turnos exaustivos, tem um custo que recai sobre quem cuida.
Organização e enfrentamento à violência
A Carta de São Paulo também aponta para dentro da estrutura sindical, quando recomenda que os diretores de todos os sindicatos filiados a concorrer nas eleições da CIPA+A nos estabelecimentos de saúde, para ampliar a presença sindical nos espaços de educação e proteção da categoria.
E foi selado mais um compromisso que já vinha sendo construído ao longo de 2026: tornar permanente a campanha "Saúde sim. Violência não.", lançada pela Federação para denunciar casos de violência contra profissionais da saúde e acolher quem foi atingido. A decisão é continuar levando esse debate a todos os espaços possíveis — das Câmaras Municipais, por meio de audiências públicas; às SIPATs (Semanas Internas de Prevenção de Acidentes) — reforçando que a violência contra quem trabalha na saúde não pode ser tratada como fato isolado ou que faz parte da rotina da profissão. A raiz desse mal está nas políticas públicas de saúde e na gestão dos estabelecimentos de saúde e queremos que esta realidade seja enfrentada.
Política como instrumento de defesa
Conscientes que as decisões governamentais sobre a saúde pública recaem também na categoria, os dirigentes decidem investir em educação política. Os delegados decidem pensar na possibilidade de lançar candidaturas próprias em cargos eletivos e, na ausência delas, de apoiar candidatos comprometidos com as pautas dos trabalhadores da saúde. É um recado direto: as decisões que afetam a vida de 800 mil profissionais não podem continuar sendo tomadas sem a presença de quem vive essa realidade nos corredores dos hospitais, clínicas e serviços de saúde.
Um chamado que ultrapassa os sindicatos
A 19ª Carta de São Paulo foi subscrita pela Federação Paulista da Saúde e por dez sindicatos regionais filiados — de Araçatuba, Campinas, Franca, Jaú, Piracicaba, Presidente Prudente, Santos, São José do Rio Preto, Sorocaba e São Paulo que juntos representam meio milhão de trabalhadores.
Ela é um convite para que os gestores de saúde enxerguem as necessidades urgentes de quem sustenta o sistema de saúde privado e filantrópico paulista e também à população, para que entenda que a segurança e a dignidade dos trabalhadores da saúde são essenciais para a qualidade do atendimento que ela recebe. Cuidar de quem cuida, dizem os delegados reunidos em Praia Grande, não é favor — é responsabilidade compartilhada.
* Edison Laércio de Oliveira é presidente da Federação
Paulista da Saúde e do Sinsaúde Campinas e Região