Unicamp produz série de vídeos que recupera histórias de Paulo Freire

Unicamp produz série de vídeos que recupera histórias de Paulo Freire
Publicado: 18 de setembro, 2026

Para marcar os 105 anos do nascimento de Paulo Freire, a Faculdade de Educação (FE) da Unicamp lança neste sábado, 19 de setembro, o primeiro episódio de “Conduzindo Paulo Freire”. A série de vídeos curtos recupera uma experiência singular vivida pelo professor César Nunes quando ainda era estudante de mestrado: durante cerca de um ano e meio, ele conduziu o educador entre sua casa, no bairro de Perdizes, em São Paulo, e a Unicamp.

Nos vídeos, Nunes volta ao volante e percorre as ruas de Campinas enquanto relembra o que acontecia dentro do carro. As conversas durante as viagens, os encontros na Faculdade e os pequenos acontecimentos do trajeto revelam uma dimensão pouco conhecida de Paulo Freire: não apenas o pensador de projeção internacional, mas também o professor atento às pessoas, às palavras e às experiências cotidianas.

>> Veja o canal da Educação da Unicamp.

A história remonta a 1980, quando Freire retornou ao Brasil depois de 16 anos de exílio. Ainda em Genebra, ele já havia sido informado do interesse da Unicamp e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) em contar com sua atuação. César Nunes estava entre os estudantes que o receberam no Aeroporto Internacional de Viracopos.

Segundo Nunes, ao ouvir seu nome ser chamado do outro lado do saguão, Freire afastou-se por alguns instantes do grupo de autoridades que o acompanhava e aproximou-se dos estudantes. Subiu numa cadeira e anunciou: “Estou aqui para reaprender o Brasil. Não vim para ensinar nada.”

Alguns meses depois, o então vice-diretor da Faculdade convidou o jovem estudante para uma tarefa prática. Era preciso buscar Paulo Freire em São Paulo nos dias em que o transporte de ônibus para a Universidade não estava disponível. Nunes calibrou os pneus do Gol branco da FE e seguiu pela Rodovia Anhanguera. Começava assim uma convivência feita de quilômetros, conversas e silêncios, agora reconstruída diante das câmeras.

O título “Conduzindo Paulo Freire” faz uma referência bem-humorada ao filme “Conduzindo Miss Daisy”, lançado em 1989. Gravada em grande parte dentro de um automóvel, a série coloca o espectador no lugar de um passageiro. A cidade passa pelas janelas enquanto as recordações de César Nunes reconstituem o ambiente daqueles deslocamentos e episódios que dificilmente apareceriam em documentos oficiais — como a ocasião em que Freire quis interromper a viagem para conversar sobre a poesia da água de coco vendida na entrada de Barão Geraldo.

Paulo Freire atuou na FE da Unicamp entre 1981 e 1991, junto ao atual Departamento de Ciências Sociais na Educação (Decise), onde ministrou disciplinas relacionadas à educação e aos movimentos sociais. Sua presença deixou marcas na formação de estudantes, nas pesquisas desenvolvidas pela unidade e na própria história institucional da Universidade.

Em 2019, o prédio principal da FE passou a se chamar Professor Paulo Freire. A nomeação nasceu de uma proposta apresentada por estudantes do Mestrado Profissional em Educação Escolar, recebeu centenas de assinaturas da comunidade universitária e foi aprovada por unanimidade pela Congregação da Faculdade.

Patrono da Educação Brasileira desde 2012, Freire é autor de uma obra traduzida e estudada em todo o mundo. “Pedagogia do Oprimido”, seu livro mais conhecido, foi apontado em levantamento da London School of Economics como a terceira obra mais citada nas ciências humanas. “Conduzindo Paulo Freire”, no entanto, aproxima a câmera do homem que existia ao lado do autor: o professor que percorria a Anhanguera para dar aulas em Campinas, conversava longamente com um jovem estudante e encontrava matéria para o pensamento nas situações mais comuns de uma viagem.

Os demais episódios serão publicados nas semanas seguintes à estreia, na mesma playlist do canal da FE no YouTube.
 

Sobre Paulo Freire

Paulo Freire nasceu em Recife, em 19 de setembro de 1921. Sua concepção de educação e alfabetização partia das experiências concretas, da linguagem e do universo cultural dos próprios educandos. Preso depois do golpe de 1964, permaneceu 16 anos no exílio, período em que trabalhou no Chile, nos Estados Unidos, na Suíça, na Guiné-Bissau e em Moçambique. De volta ao Brasil em 1980, lecionou na PUC-SP e na Faculdade de Educação da Unicamp. Entre 1989 e 1991, foi secretário municipal de Educação de São Paulo. Recebeu 41 títulos de doutor honoris causa, além de outras distinções acadêmicas, e tornou-se uma das principais referências mundiais do pensamento educacional. Morreu em São Paulo, em 2 de maio de 1997.

Fonte: Jornal da Unicamp
 

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