E deixa um convite para quem deseja enfrentar o desafio: “Se tiver oportunidade, faça. Pela fé ou pelo esporte. Vale cada passo.”
Superação, espiritualidade, amizade e resistência física. Esses foram alguns dos elementos que marcaram a mais recente jornada do técnico de enfermagem aposentado Irineu Aparecido da Rocha, diretor do Sindicato dos Trabalhadores da Saúde de Jaú. Em fevereiro de 2026, ele percorreu a pé os 318 quilômetros do Caminho da Fé, entre os municípios de Águas da Prata (SP) e Aparecida (SP), em uma peregrinação que durou 10 dias e foi compartilhada com dois amigos.
A caminhada começou às 5h20 da manhã do dia 16 de fevereiro, quando Irineu, acompanhado do serralheiro Carlinhos — que realizava o percurso pela quinta vez — e de Adelson, estreante na experiência, iniciou a jornada rumo ao Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida.
“Saímos com um objetivo muito claro: chegar em Aparecida de qualquer forma. Claro que a principal ideia era caminhar, mas se alguém se machucasse pegaria um carro ou Uber e esperaria os outros na cidade. O importante era completar o caminho”, conta Irineu.
Ao longo da travessia, o trio percorreu em média 30 quilômetros por dia, com trechos que variaram entre 28 km e 41 km diários, enfrentando subidas, estradas rurais e a exigente travessia da Serra da Mantiqueira.
Um caminho de fé, história e peregrinação
O Caminho da Fé é um roteiro de peregrinação inspirado no tradicional Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha. O trajeto brasileiro foi idealizado pelo peregrino Almiro José Grings, que após percorrer o caminho europeu decidiu criar uma rota semelhante no Brasil.
O principal ramal começa em Águas da Prata, passa por diversas cidades do interior paulista e mineiro, segue pela Serra da Mantiqueira até chegar ao Santuário Nacional de Aparecida, no Vale do Paraíba. Ao longo dos mais de 300 quilômetros, os peregrinos passam por cidades como Andradas, Ouro Fino, Inconfidentes, Borda da Mata, Tocos do Moji, Estiva, Paraisópolis, Luminosa, Campos do Jordão, Pindamonhangaba e Guaratinguetá, entre outras localidades.
Ao longo do percurso, os peregrinos encontram pousadas credenciadas, pontos de apoio e sinalização característica com setas amarelas, que indicam o caminho correto. Mesmo assim, a experiência vai muito além de uma simples caminhada. “Fotos e relatos não conseguem explicar. Só fazendo para entender o que é o Caminho da Fé”, resume Irineu.
Uma experiência que marcou a vida
A relação de Irineu com o Caminho da Fé não é recente. Ele realizou a primeira peregrinação em novembro de 2003, poucos meses depois da criação oficial da rota. Naquela época, quase ninguém conhecia o percurso.
“Eu convidava as pessoas e elas falavam: ‘não sou louco’. Acabei indo sozinho. Foi um dos momentos em que mais fiquei sozinho na vida. Era eu, meus pensamentos e Deus”, recorda.
Naquele período inicial, cerca de 400 pessoas haviam percorrido o caminho. Hoje, segundo ele, o número ultrapassa 100 mil peregrinos, vindos inclusive de vários países.
“Nas pousadas sempre tem histórias. ‘Aqui ficou um americano, aqui ficou um francês’. Hoje o caminho é conhecido no mundo todo”, comenta.
Entre orações, amizades e reflexões
Durante os dez dias de caminhada, o trio adotou um ritual simples: cada um seguia um trecho do caminho em silêncio, respeitando o ritmo e o momento espiritual do outro. “De manhã cada um tinha seu momento sozinho. A gente se distanciava um pouco e cada um fazia suas orações, seus pedidos, seus agradecimentos.”
A peregrinação também proporcionou encontros inesperados. Irineu lembra de um peregrino evangélico que caminhou com eles e participou das orações. “Ele rezou o Pai Nosso e até a Ave Maria com a gente. No caminho você percebe que a fé une as pessoas.”
Outro aspecto curioso foi a reação de moradores das cidades. “Muita gente fora do caminho não sabe o que é peregrino. Olhavam para nós e falavam: ‘olha os andarilhos’”, conta, rindo. Mesmo assim, a maioria das pessoas demonstra respeito e curiosidade pela jornada. E também surgem amizades inesperadas. “No caminho você conversa com gente do Brasil inteiro.”
O chamado “milagre do quilômetro 100”
Um dos momentos mais marcantes aconteceu quando o grupo alcançou aproximadamente o quilômetro 100 da caminhada. Ali, tomado por uma forte emoção, Irineu relembrou histórias vividas ao longo de décadas trabalhando em hospitais, especialmente o sofrimento de pacientes com doenças graves.
“Veio tudo na minha cabeça. O sofrimento de quem tem leucemia, das famílias, das pessoas lutando pela vida. Foi um momento de muita energia.” Essas lembranças reforçaram o sentido espiritual da peregrinação. “O caminho inteiro tem uma energia diferente.”
Cansaço, superação e companheirismo
Apesar da exigência física — agravada pelo relevo montanhoso em muitos trechos — Irineu afirma que em nenhum momento pensou em desistir. O segredo, segundo ele, foi o planejamento e a parceria entre os amigos, que haviam combinado a viagem um ano antes.
Para quem pretende fazer o percurso sem apoio profissional, ele recomenda grupos pequenos. “Sem agência especializada, no máximo quatro pessoas. Mais que isso pode gerar desgaste. Caminhar muitos quilômetros por dia exige paciência e respeito ao ritmo de cada um.”
Existem também grupos organizados por guias, que oferecem carro de apoio, transporte de mochilas e alimentação. Esse tipo de estrutura pode custar entre R$ 3.500 e R$ 5.000 por pessoa, já incluindo hospedagem e refeições.
Preparação física e mental
Acostumado a desafios físicos — ele também é maratonista, tendo completado provas de 42 km no Brasil e no exterior — Irineu afirma que o Caminho da Fé exige preparação. A principal dica dele é cuidar dos pés. “Prepare os pés. Eles são o principal. Faça caminhadas de 10 a 15 quilômetros antes.”
Mas a preparação não é apenas física.“Prepare a mente também. Porque as emoções do caminho são muito fortes.” Mesmo quem não tem motivação religiosa pode aproveitar a experiência. “Eu recomendo tanto pela religiosidade quanto pelo esporte. Tem gente que fala que não acredita em Deus, mas faz o caminho. Só de estar ali já está buscando alguma coisa.”
Fonte: Sinsaúde Jaú